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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Venezuelando

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Volta e meia, surgem comentários em diversas plataformas de mídia, atribuindo à esquerda, a pecha de que, se o Lula vencer as próximas eleições, o Brasil vai se tornar uma Venezuela. Atire a primeira pedra quem nunca ouviu tal sentença. Tem até um vídeo, já antigo, onde o Capitão Jair aparece elogiando Hugo Chaves. É o famoso “quem nunca”. Pois bem, em conversa com a assistente social da cidade de Trindade do Sul, no norte gaúcho, soube detalhes da forte onda imigratória que ocorreu naquela cidade.

A situação da Venezuela

É indiscutível e inquestionável. A situação humanitária do país de Nicolás Maduro atingiu níveis catastróficos, em situação de extrema miséria. Não é preciso estar lá nem tampouco visitar o país vizinho. Basta que saibamos da história pela boca dos próprios venezuelanos. Fosse mentira, só alguns contariam, mas por ser verdade, é uníssono. A falsa democracia bolivariana é descrita detalhadamente por milhares de imigrantes que aqui chegaram. Também parecem ser verdadeiros, os ensaios de alguns políticos em apoio ao modelo chavista, dos quais me nego a acreditar, mas não estou disposto a pagar para ver.

A situação dos venezuelanos

Imigrando ao Brasil, já há algum tempo, os venezuelanos trazem, de forma muito semelhante aos nossos antepassados alemães, judeus, italianos, poloneses e de outras etnias, a esperança de recomeçar em novas terras. É admirável esse movimento migratório, dada a coragem de abandonar tudo, ou nada, pensando bem. Ao chegarem, muitas vezes com a roupa do corpo, ficam à mercê de diversas situações, e o Estado, por meio das políticas de inclusão social humanitárias, lhes garante um mínimo de dignidade para recomeçarem suas vidas. O velho Brasil sendo Brasil, em sua bela roupagem de pátria mãe gentil. Também é curioso, ver o comportamento desses imigrantes em relação aos povos europeus que aqui aportaram há mais de um século. Quanta semelhança, mesmo depois de tanto tempo. Atitudes admiráveis, como se fosse um passaporte de humildade e resignação, eivado do desejo de mudar e melhorar suas próprias vidas e, principalmente, das gerações futuras.

Recomeço

No trabalho, vão ocupando postos desdenhados pelos brasileiros. Pontuais e assíduos, são cordatos e sabem esperar. Entendem o “não” como algo passageiro. Têm esperança. Não brigam e se comunicam sempre de forma educada. Raramente se exaltam. Vivem uma espécie de cooperativismo, que fazem lembrar os tempos de guerra. Como não lembrar dos imigrantes europeus fugidos da grande guerra. Alfredo Beraldin (1925), pai de um grande amigo, Fulvio Beraldin, imigrou da Itália em 1949 e se estabeleceu primeiramente em Erechim. Em um de nossos encontros enquanto ainda vivia no Brasil, me contou que, ainda no navio, à caminho de Santos, “passavam o osso”, de família em família, para que fizessem uma rala sopa. Inimaginável nos dias atuais. Os venezuelanos de hoje “passam o gás”, para não terem de gastar com o casco do GLP. Até quatro famílias cozinham com o mesmo botijão. São comportamentos repetitivos, como se soubessem o poder desta estratégia. E, como os europeus, procriam e dão origem a uma nova etnia. Em algumas décadas teremos os descendentes dos venezuelanos, prova de que o ser humano pertence a uma só raça. Um sentimento como o do escritor alemão Thomas Mann (Nobel de Literatura em 1929). Também imigrante e filho de uma brasileira, a quem atribuia a origem de vários de seus predicados, Mann dizia que a Alemanha está onde os alemães estão! Em total repúdio à política nazista da época.

No futuro

Por isso, depois de ouvir o detalhado relato da assistente social, passei a desejar o melhor desses dois mundos. Passei a esperar que nós, brasileiros, absorvamos um pouco da educação daquele povo. Que possamos ter a paciência, a resiliência, a vontade e a garra dos venezuelanos. Que saibamos ser gratos às oportunidades e que tenhamos fé no incansável recomeço. Que nossos trabalhadores aprendam a ser pontuais e assíduos. Incrível perceber como muitos brasileiros desdenham da própria pátria. Esquecem de que debaixo de nossos pés, há um manancial de riquezas, onde só o trabalho é capaz de transformar, coletivamente. Sob este prisma, digo apenas o óbvio: será muito ruim para o Brasil, se o próximo presidente adotar políticas bolivarianas, mas seria excelente para a nação, se os brasileiros tivessem a humildade, a educação, a cordialidade e a vontade que os imigrantes venezuelanos têm. Tomara o Brasil se tornar, enquanto povo, numa Venezuela.

 

 

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