O assassino anfitrião – A parte Cor-de-Rosa
Na minha coluna do dia 14 de dezembro prometi que iria contar uma história que se passou comigo em 1995, a história do assassino anfitrião. Mas porque contar isso, depois de tantos anos? Porque a gente nunca sabe realmente com quem está lidando.
Tempos de estudante
Como disse, essa história verídica se passou comigo em 1995. Eu cursava o segundo semestre de Ciências Contábeis na UFRGS e era tesoureiro do diretório acadêmico, o DAECA. Num belo dia, recebi uma carta da UFRJ, convidando alunos a participar de uma espécie de conselho, que iria organizar o Encontro Nacional de Estudantes de Ciências Contábeis, no Rio de Janeiro. Aventureiro, na hora pensei: eu vou, tal como aparecia nas antigas camisetas do Rock in Rio.
A viagem
Fiz uma vaquinha de dois pilas com os colegas da faculdade e em duas noites reuni todo o dinheiro da passagem de ônibus. Cento e trinta reais, ida e volta. Escrevi aquele que seria meu primeiro ofício, no computador da direção da FCE. A internet seria implantada meses depois na universidade e eu mal sabia operar um PC. Tive que conhecer o Word, digitar o texto, imprimir e depois transmitir por fax. Levei quase uma tarde para fazer o que hoje se leva poucos minutos. Tudo certo e confirmado.
Cheguei ao Rio de Janeiro depois de 24 horas de viagem. Na Rodoviária, me esperava um jovem, pouco mais velho do que os meus 21 anos. De lá, pegamos um ônibus e fomos até um restaurante na Cinelândia, bairro tradicional do centro do Rio. Enquanto eu olhava maravilhado o vai e vem daquela cidade, totalmente sozinho, com pouco dinheiro e a cabeça nas nuvens, o Nelson, meu anfitrião pediu dois chopes e alguma coisa para comer. Era um sujeito de poucas palavras, mas um bom anfitrião.
Candelária
O Rio de Janeiro tinha fama de ser muito violento naquele tempo, mas eu me sentia seguro ao lado dele. Pegamos outro ônibus em direção ao Rio Comprido, perto do Sambódromo, onde ficava a casa dele. No caminho, passamos pela Igreja da Candelária e puxei conversa sobre a violência. Fazia pouco tempo que havia ocorrido a “Chacina da Candelária”. Então, meu sereno anfitrião apenas respondeu que tinha sido policial militar, mas que não estava mais na corporação. Então, antes de irmos para o alojamento, que ficava nas dependências do prédio histórico da UFRJ, na Praia Vermelha, passamos na casa dele. Conheci sua família, preparei um chimarrão, o que foi motivo de algumas risadas. Meu anfitrião, sobretudo, era um sujeito de família. E, como fazia desde criança, sentei na soleira da porta e tomei o meu mate.
Na soleira da porta
No outro dia, entre uma e outra programação, meu anfitrião ainda me levou à praia de Copacabana e depois participamos de uma reunião na sede da UNE, perto do Palácio do Catete. Era interessante viver e passar por lugares que fizeram parte da história do Brasil. Além disso, minha estada no Rio de Janeiro havia sido a minha primeira viagem só. Com o dinheiro contado, na noite anterior à minha volta, ainda pude me sentar em outra soleira de porta, a do Canecão. Pertinho da Praia Vermelha, naquela noite bem carioca, rolava um show da Marisa Monte. Fiquei ali, do lado de fora, ouvindo aquelas músicas do álbum Cor-de-rosa e Carvão, com as costas e a cabeça recostada na bela e almofadada porta da tradicional casa de espetáculos. O mundo passava em minha frente e eu curtia a música, em silêncio, em paz e sozinho. Histórias da juventude. E o assassino? Eu conto amanhã, na minha coluna de quarta. Você vai se surpreender.