Quando a Justiça não faz justiça
Escrevi essa coluna no dia sete de dezembro. Neste dia, o julgamento da Boate Kiss se encaminhava para o seu sétimo dia, mas não seria o último. Sou uma daquelas pessoas que conhece uma família que perdeu filhos naquela noite fatídica. Por isso, não tenho acompanhado o julgamento, mas tenho sofrido em paralelo, perto do Carlos e da Tite, dois exemplos de superação, além é claro, de toda a família deles. E inspirado nesta história e solidário à dor de centenas de pais, tomei um pouco de coragem para abordar este tema, tão delicado: a justiça.
O povo pede justiça!
Sempre que a mídia veicula certas aberrações da raça humana, a exemplo do que fizeram Suzane von Richthofen e os irmãos Cravinho, o caso Bernardo e tantos outros, que envolvem uma ou mais vítimas, vejo também um coro de pessoas pedindo e exigindo “justiça”, sempre. Acaba, o Poder Judiciário, quase que revestido de um poder supremo ou mais elevado, com sua intrincada missão de capitular, instruir e julgar, que mais parece um IML de sentimentos. Tudo estaciona nele. Raiva, impotência, desespero, tristeza, vingança e até o ódio, a ausência de amor. Todos esses sentimentos batem à porta do judiciário e as pessoas exigem respostas.
Todos perdem
O resultado disso tudo é que eu jamais presenciei um julgamento que satisfizesse a opinião pública. O sentimento de compaixão brota junto das vítimas, que veem suas esperanças de justiça ameaçadas pelo processo, que castiga os corações. Sinto compaixão por todos, até mesmo pelos réus, promotores e juízes. Todos terminam como vítimas desses episódios. Todos perdem. Afinal, esses casos emblemáticos impõem aos réus um julgamento social, moral e definitivo onde a cadeia vira refúgio. Por mais que possa parecer, esse tipo de réu, cumprindo a pena preso ou em liberdade, tem sua vida absolutamente abalada. Não há espaço para o perdão no julgamento social, com exceção aos criminosos natos, o que não me parece ser o caso da Kiss.
Nobres julgadores, pobres julgadores
Agora, senhoras e senhores, em um exercício de empatia, procurem estar no lugar dos juízes e promotores. Na lei brasileira e nos manuais da magistratura, não há registros de como devem se comportar estes operadores do judiciário em casos como esses. Assim, cada respiração, cada intervenção, cada detalhe deve ser operado com a atenção de um neurocirurgião. Um pouco pior, porque o cirurgião consegue limitar o acesso à sala de cirurgia, os juízes e promotores não. Eles têm que encarar os trabalhos no meio desta Gestalt. Faz parte do processo.
Somos todos vítimas
Por fim, a parte mais sensível e difícil de acalmar: as vítimas. Na sentença, um criminoso pode ser sentenciado em mais de 200 anos de pena, como aconteceu naquele massacre da Candelária. Outro dia conto uma história que vivi em 1995. Mas o Brasil não tem prisão perpétua. Lamentavelmente, tendo a acreditar que o desfecho deste julgamento será a incompreensão. Qualquer que seja a pena prevista na legislação brasileira, a Justiça não conseguirá fazer justiça, simplesmente porque, o legislador, quando prevê a norma, não imagina que casos como este possam acontecer, pois são sobrenaturais e envolvem muitas pessoas.
O amor reconstrói
É por essas e outras razões que a humanidade precisa evoluir. Quando essas barbáries acontecem perto da gente, de uma forma ou de outra nos vemos envolvidos e sofremos. Mas há luz, há esperança. Mesmo agora, quando todo este decantar de tristezas é revolvido do fundo do coração, meus amigos Carlos e Tite se apresentam como pessoas extraordinárias. Com amor e um brilho nos olhos, ainda que tão ofuscados por tudo o que ocorreu, são exemplos de que não se pode esperar pela Justiça para recomeçar. É muito complicado compreender o que significa ser justo, bem como é delicado falar disso. Mas eles ensinam, com suas atitudes, com o exemplo, que só o amor é capaz de manter a vida viva. Sou muito grato a eles, que souberam aprender e lidar com todo esse sofrimento. E não é fácil.