O mês de setembro é dedicado às ações preventivas de um grave problema que vem crescendo nos últimos tempos, o suicídio. Representado pela cor amarela, o período intensifica as ações em prol da reflexão sobre o impacto causado por essas mortes e discute medidas que possam auxiliar as pessoas que estão sob o risco de cometer o suicídio. O mês foi escolhido pela Associação Internacional de Prevenção do Suicídio.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio, e a cada três segundos uma pessoa atenta contra a própria vida.
De acordo com a médica psiquiatra que atende no Centro Hospitalar Santa Mônica, em Erechim, Fabiana Todeschini, as taxas de suicídio vêm aumentando globalmente e o número de vidas perdidas desta forma, ultrapassa a cada ano, o número de mortes decorrentes de homicídio e guerra, combinados. Além disso, cada suicídio tem um sério impacto na vida de pelo menos outras seis pessoas. Sobre o aumento, em países desenvolvidos a prática tem relação com desordens mentais provocadas especialmente por abuso de álcool e depressão. Já nos países mais pobres, as principais causas das mortes são a pressão e o estresse por problemas socioeconômicos.
Incidência
Fabiana relata que os óbitos por suicídios são três vezes maiores em homens do que em mulheres. Inversamente, as tentativas de suicídio são, em média, três vezes mais frequentes entre as mulheres. Quanto à faixa etária, segundo ela, é mais elevada entre os jovens e os idosos. “O comportamento suicida entre jovens e adolescentes envolvem vários fatores incluindo: humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sócias, história familiar de transtorno psiquiátrico, rejeição familiar, além de abuso físico e sexual na infância. Já nos idosos, devido a fatores como perda de parentes (sobretudo do cônjuge), solidão, existência de enfermidades degenerativas e dolorosas, entre outros. Entretanto, a médica afirma que os principais fatores de risco para o suicídio são: história de tentativa de suicídio e transtorno mental.
Sintomas de alerta
De acordo com a psiquiatra, a maioria das pessoas que falam sobre suicídio chegam ao ato e a maioria dos suicídios é precedida por discretos sinais comportamentais ou verbais. Ao mesmo tempo, a pessoa em risco apresenta ambivalência entre querer viver e querer morrer.
Como ajudar?
Fabiana explica que entre as formas de ajuda está o apoio, o acompanhamento do paciente, a orientação sobre a procura de profissional qualificado e a manutenção desse acompanhamento. “Falar é sempre a melhor solução”, completa.
Hoje também há um Centro de Valorização a Vida (CVV) que funciona 24 horas e realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio.
Como a psiquiatria atua na prevenção?
A especialidade avalia de forma particular cada caso, escuta, apoia e orienta os pacientes e seus familiares. Do mesmo modo orienta o tratamento medicamentoso e psicoterápico e, se necessário, a internação hospitalar.
Suicídio mata mais do que HIV entre adolescentes
O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul – Simers – alerta que entre os jovens, na faixa etária de 15 a 19 anos, o suicídio também é um forte perigo e mata mais do que o vírus HIV.
Um estudo apresentado recentemente no Ciclo de Avanços de Psiquiatria da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul mostra que os Vales Taquari e Rio Pardo são as regiões com maior índice de suicídios no país.
Conforme o coordenador do Comitê de Prevenção ao Suicídio da APRS (Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul), Rafael Moreno Ferro de Araújo, através desse estudo três tabus foram quebrados: o agrotóxico seria a principal causa das mortes, pessoas com descendência alemã estariam mais propensas a se matarem e os números aumentam em munícipios mais frios.
Para Rafael, com base nos estudos de 2016, só existem duas formas de prevenção. “O estado deve investir capacitando profissionais da saúde para que eles possam identificar e tratar pacientes em risco de suicídio; e tentar diminuir o acesso ao método letal como corda, arma de fogo e veneno, o que é uma tarefa difícil principalmente no meio rural”.
Um problema de saúde pública
A psicóloga, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, Mônica Luísa Kieling, reitera a afirmação feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS 2012), a qual cita o suicídio como um problema de saúde pública, pois constitui uma das principais causas de morte em todo o mundo. “Na entrada da vida adulta o risco de suicídio aumenta”, comenta.
Mônica explica que não são os acontecimentos por si só que podem conduzir a alterações emocionais, mas sim a forma como são percebidos pelas pessoas. “Os acontecimentos não tem uma conotação positiva ou negativa; a conotação depende da percepção que o indivíduo possui. Assim, um mesmo acontecimento poderá ser um fator de risco para a desorganização mental de algumas pessoas, enquanto que para outros não ser tão significativo”, comenta.
Ainda conforme a psicóloga, os comportamentos suicidas podem manifestar-se muitas vezes como uma resposta ao estresse. Os níveis de estresse podem tornar-se excessivamente intensos e o indivíduo sentir que não tem recursos internos para manter o equilíbrio emocional.
A especialista orienta que sinais no cotidiano podem mostrar à família que a pessoa planeja ou pensa na possiblidade de suicídio. “É importante que a família fique atenta aos comportamentos de alerta. Por trás deles estão os sentimentos de pessoas que podem estar pensando em suicídio. Todos começam com “D”: depressão, desesperança, desamparo e desespero (regra dos 4D)”, diz.
Auxílio
“Caso note alguém com este comportamento, deve buscar ajuda especializada com rapidez, tais como médicos, psiquiatras, psicólogos, ou o auxílio pode começar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que é a porta de entrada para os usuários do SUS. Se necessário, o paciente será encaminhado a um serviço de atenção especializada. Mas principalmente dar muito apoio para esta pessoa, não julgando-a, e sim dando o suporte de que ela necessita”.
Terapia holística
O terapeuta holístico Vilson Fornazieri comenta que durante os atendimentos, muitas vezes é preciso trabalhar as questões que vêm desde o útero da mãe, sendo as aflições ou angústias que podem estar interligadas e trazer algum efeito futuro para os indivíduos, tais como o medo. “As pessoas que são deprimidas tem um motivo, uma origem. Nesse sentido, temos uma herança de família, em alguns casos boas, em outros ruins. Com isso, muitas pessoas buscam na religião, na espiritualidade algum suporte para vencer os obstáculos e entraves que teve no decorrer da vida”, salientou.
As pessoas que se suicidam não conseguem ver possibilidades diante dos problemas e tomam a decisão. “É muito comum eu atender pessoas que já tentaram cometer suicídio, algumas chegam a planejar, é preocupante”, comenta.
O terapeuta reforçou que duas coisas estão aliadas: sentimento e pensamento, sendo que este último pode levar a pessoa a cometer alguns atos, principalmente quando o sentimento está abalado, com angústia, tristeza, por exemplo.
No processo de tratamento, Vilson diz que é preciso limpar a esfera emocional, pois segundo ele, sem isso é mais demorada a recuperação. “Através da respiração, vamos liberando os traumas e outros sentimentos negativos, saindo do sofrimento. É uma auto-cura”, comentou.
Ele disse ainda, que muitas pessoas “camuflam” os sentimentos e problemas e fica ainda mais difícil ajudá-las. “Neste caso também não sabemos se é um pensamento ou uma experiência espiritual que pode levar a pessoa a isso”, completou.
Há várias formas de tratamento e as pessoas que enfrentam algum tipo de problema, precisam procurar ajuda. “A alma quando dói não tem remédio que cure e é preciso terapia, com auxílio de florais”.
Vilson realizou um trabalho em Floriano Peixoto, o qual foi destaque a nível nacional. Atualmente o terapeuta atende em Gaurama e destaca que está sendo muito positiva a aproximação ainda maior da saúde mental e a medicina. “Trabalhamos em parceria com profissionais de várias áreas e assim acontece a prevenção de problemas, tais como o suicídio que é auto crueldade de si mesmo”, salientou.
A mudança de atitude e a superação diante da ideia de suicídio
O agricultor KJ, de 52 anos, conversou com a reportagem do Bom Dia e relatou o drama vivenciado quando pensou em tirar a própria vida. Sobre os fatores que podem ter influenciado na ideia de suicídio, ele citou uma fase complicada que estava vivenciando com problemas de saúde da mãe, além da própria depressão e outras doenças.
Atualmente ele realiza tratamento holístico e afirma não ter mais os mesmos pensamentos negativos. “Estou me cuidando com o terapeuta há 1 ano, faço uso de medicamentos fitoterápicos e sinto-me bem melhor, sei o que estou fazendo e ignoro muitos problemas do dia a dia”, reforçou.