No último sábado, enquanto tomava um café em uma padaria local, li trechos da obra “Verdade e História” do renomado historiador José D’Assunção Barros, lançado em 2022, e alguns elementos do texto me levaram a reflexionar a construção da historiografia local.
O primeiro, está na página sete: “A reescrita constante da História, expressa através da acumulação sem fim de inúmeras obras historiográficas sobre um mesmo tema, é de certo modo uma constatação incontornável e instantânea para qualquer historiador que, na era digital, tem na própria Internet a possibilidade de contemplar a imensa variedade de interpretações e pontos de vista sobre cada um dos diversos problemas historiográficos demandados ou reconstituídos pelas sucessivas gerações”.
Nos faz pensar a respeito da pluralidade de interpretações sobre um mesmo objeto, a escolha das expressões para apresentá-lo, o olhar teórico metodológico e os impactos destas escolhas, sejam para a comunidade acadêmica ou à sociedade em geral. O que nos leva ao próximo trecho, cuja interpretação ilustra a alteração do olhar acerca da própria concepção de história.
De igual maneira, resta muito pouco, na historiografia dominante nestes tempos contemporâneos, da antiga pretensão positivista de alcançar um dia a verdade última, acabada e definitiva, ponto final de um conhecimento que poderia esgotar cada tema de estudo historiográfico à maneira de uma ciência exata cujos resultados poderiam ser aceitos consensualmente. A própria redefinição da História como uma ciência interpretativa, levada a cabo nos últimos dois séculos de constituição da História como disciplina científica, leva a se admitir – na maior parte da comunidade historiográfica – que os resultados e produtos da História a serem alcançados no plano mais geral são apenas hipóteses sobre o desenvolvimento do mundo humano, interpretações sobre os processos vividos pela humanidade ou por cada uma das diversas sociedades dela constituintes, leituras em torno das razões e desdobramentos dos acontecimentos que de alguma maneira impactaram as comunidades humanas em algum momento.
A História, enfim, é uma construção: uma eterna e permanentemente reatualizada construção encaminhada pelos diversificados trabalhos dos historiadores em torno de seus inúmeros temas e objetos (p. 08).
Portanto, aplicar estes elementos à reflexão historiográfica da história local, é assumir a busca por uma isonomia acerca dos fatos históricos. Um exemplo simples, mas carregado de nexos é a escolha entre pioneiro e colonizador. Em um primeiro momento podemos trata-los como sinônimos, mas eles não são.