14°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Ensino

Qual a importância do antropólogo para a sociedade

Professor da UFFS Campus de Erechim destaca que profissional não estuda a aldeia, estuda na aldeia

teste
Daniel de Bem
Por Carlos Silveira
Foto Arquivo pessoal

Você já ouviu falar em antropologia, e qual a sua importância para a sociedade? Se sim, isto é muito bom, pois garante que tens um bom conhecimento a respeito das ciências humanas, se não, nunca é tarde para aprender e, para tanto, falamos com o professor Daniel F. de Bem da Universidade Federal da Fronteira Sul, campus de Erechim que nos fala mais a respeito sobre o tema.

Esforço científico

 Daniel destaca que a antropologia é um esforço científico que busca compreender as diversas formas que coletivos de pessoas desenvolveram para viver num mundo que é compartilhado, cada vez mais. “Essas são formas de sentir e de pensar; de perceber esse mundo e os seres que nele estão, entes naturais (pedra, árvore, borboleta) e fabricados (carro, dinheiro, nação); de se relacionar consigo próprio, com as outras pessoas da sua família, do seu grupo social, ou com pessoas de fora; formas de caçar, coletar e produzir alimentos e consumí-los, fazer arte, política, os vários trabalhos, negócios, cuidados e divertimentos, ensinar técnicas, valores morais, religiosos e assim por diante”, pontua.

Herança

 “Tudo isso nós podemos chamar abrangentemente de Cultura. E essa é a riqueza, a herança, da espécie humana; algo que vem sendo construído por nós e, ao mesmo tempo, vem nos construindo há cerca de 200 mil anos, produzindo efeitos corporais, psicológicos, sociais e ambientais. Contudo, cada sociedade, cada lugar, cada tempo, cada grupo tem as suas particularidades no que é conhecido e recomendado, no que é de fato feito e no que é excluído desse vasto repertório de formas de viver. Podemos dizer que o que existe são múltiplas culturas que são expressões de uma inteligência cultural estrutural”, garante.

Estudar o ser humano

         Daniel destaca que é isso que as antropólogas e antropólogos fazem, ou seja, estudar o ser humano e as suas culturas. “Nos valemos de técnicas e teorias que nos auxiliam a coletar, sistematizar, interpretar e descrever experiências, diálogos e reflexões ocorridas na nossa interação com pessoas de um determinado coletivo (cristãos, médicas, operários, ingleses, violinistas, turistas, moradores da comunidade “X” ou “Y”, idosas, homens solteiros da zona rural de Gaurama); na análise de artefatos culturais como mídias diversas (textos, filmes, redes sociais, músicas), ferramentas, instrumentos, utensílios, vestuário, máquinas, pratos culinários, remédios industriais ou tradicionais; e na participação ou crônica de festas e eventos (a Romaria de São Miguel, o Rally de Erechim, a Constituinte de 1988, a Pandemia da COVID-19, as eleições presidenciais)”, exemplifica.

Estuda na aldeia

         “Seguindo as palavras do antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926-2006): “o antropólogo não estuda a aldeia, estuda na aldeia”, tomado dos sabores locais, compreende o tempero da vida. Por exemplo, como campo científico, para além de saber “o que faz de um cristão, cristão?” ou “o que faz de um umbandista, umbandista?”, queremos saber “onde está a religiosidade e como ela é praticada e entendida? O que muda, o que continua, de um caso ao outro”.

Importância da ciência

         Agora, questiona Daniel, qual é a importância da ciência antropológica e dos seus profissionais para a sociedade? Primeiramente, possuem essa fundamentação teórica que advém de percepções empíricas, ou seja, não existem culturas melhores ou superiores às outras, mais ou menos evoluídas.

         “Cada cultura tem seus processos e ritmos, avanços e retrocessos dentro de sua própria lógica, soluções que funcionaram para a sua coesão social e adaptação ou domínio do meio-ambiente e que funcionando limitaram ou excluíram as alternativas. Todas têm seus prós e contras, seus acertos e seus erros; e, principalmente, suas qualidades e defeitos são relativos aos pré-conceitos de quem julga. Já dizia o filósofo – judeu sefaradita, nascido na Holanda, filho de pais fugidos da Inquisição portuguesa – Baruch Espinoza (1632-1677): “Tenho evitado cuidadosamente rri-me dos atos humanos, ou desprezá-los; o que tenho feito é tratar de compreendê-los”.

Imperativo ético

         Da postura científica Daniel ressalta que surge um imperativo ético, qual seja, se existem várias formas culturais de se “comer, rezar e amar”, a minha forma de fazer essas coisas pode estar certa para mim, mas eu não posso impô-la aos outros. “E se estamos em um mundo cada vez mais conectado, à que se ter compreensão e respeito para com os costumes dos outros e buscar por um denominador comum na ação política conjunta que é a convivência; pois na hipótese mais impessoal somos vizinhos (o guarani, o kaingang, o erechinense bota amarela, o paulista, o nordestino, o senegalês, o haitiano e o venezuelano) e na mais íntima somos parentes (todos descendentes de uma mulher africana que viveu há cerca de 200 mil anos atrás)”.

         “Além disso, podemos não concordar sobre muitas coisas, mas temos que concordar que o planeta é um só e que, se queremos garantir um futuro para os nossos filhos e netos, temos que encarar com responsabilidade os dados ambientais e as falas dos que estão mais vulneráveis social e economicamente e tomarmos medidas pactuadas coletivamente por cidadãos, governos e empresas”, garante

Humanidade

         “E nessa grande assembleia, onde devemos legislar sobre os nossos esforços para criar bem-viver no presente e as nossas garantias para as gerações futuras, talvez as antropólogas e antropólogos possam ajudar. Isso porque estamos, pelo menos há uns 150 anos, buscando aprender sobre a humanidade e seus povos através da leitura, da vivência e do diálogo direto, compilando as diferentes soluções encontradas para questões familiares, sanitárias, medicinais, ecológicas, econômicas, políticas, jurídicas, educacionais e religiosas”.

Debates

         Daniel reforça que questões como as que estão sendo debatidas contemporaneamente na sociedade brasileira: interrupção da gravidez; usos farmacêuticos e recreativos de substâncias psicoativas e consequentes impactos na punitividade e encarceramente seletivo, que atinge a população mais pobre; a disputa sobre o marco temporal para as terras indígenas; a luta contra a desinformação e os extremismos. Esses são temas que dialogam com as pesquisas antropológicas. “Vários colegas tem convivido e aprendido com pessoas implicadas nesses temas. Temos relatos, laudos e reflexões que informam os agentes de políticas públicas e podem informar a reflexão da sociedade civil”.

         Finalizando, Daniel reforça que o ofício do antropólogo é duplamente importante: como saber científico de registro e ponderação sobre as formas de viver no mundo que a nossa espécie já criou; e como saber ético que pode ajudar na conciliação entre os diferentes projetos de construção do mundo que deixaremos aos que vierem depois de nós.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas