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Opinião

Réquiem aos Lanceiros Negros

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Por Henrique Trizoto - Coordenador do Arquivo Histórico

No dia 20 de setembro, fora celebrado um dos mais significativos feriados para “gaúchos e gaúchas de todas as querências”, a Revolução Farroupilha. Neste artigo, nos debruçaremos sobre as relações de poder que a data suscita, e o poder simbólico envolvido, sob a perspectiva de Pierre Bordieu, que o compreende como algo que “faz ver e faz crer”, um poder “[...] quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica) e só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário [...]” (BOURDIEU, 1989, p.14).

É ainda, “necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. (BOURDIEU, 1989, p. 7-8).

A configuração da Semana Farroupilha e seus festejos como patrimônio sul rio-grandense: o período histórico em que ela foi sistematizada entre 14 e 20 de setembro (11 de dezembro de 1964) afim de “comemorar” o início da Revolução Farroupilha (1835-1845); a memória coletiva que acentua as funções positivas desempenhadas pela memória comum, a saber, de reforçar a coesão social, não pela coerção, mas pela adesão afetiva de um grupo” (POLLAK, 1989, p. 3).

A operação memorialística construída para legitimar a narrativa oficial acerca dos “acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra [...] em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes: partidos, sindicatos, igrejas, aldeias, regiões, clãs, famílias, nações, etc. A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõe uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementaridade, mas também oposições irredutíveis” (POLLAK, 1989, p. 10).

Cada detalhe fora pensado para consolidar a narrativa oficial, o culto aos líderes da Revolução, a indumentária, a culinária, o Hino do Estado, o próprio 20 de setembro que marca o início e não o final da Revolução. O silenciamento da Batalha de Porongos e o massacre aos Lanceiros negros, por exemplo não cabem no cancioneiro fandangueiro como “Gritos de Liberdade e “Querência Amada” para ficar nas mais conhecidas. Esta simbologia reflete a construção da identidade gaúcha, desde seus silenciamentos até os seus pilares. Conforme Bordieu, consolidados pelo poder reconhecimento e respeito a algo que se faz ver e se faz crer como seu.

           

Referências

 

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

Pollak, Michael. (1989). Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 3-15.

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