Imagine um quarto onde as quatro paredes estão repletas de livros, DVDs, CDs e mais de mil discos de vinil acolhidos em estantes com portas de vidro. É para esta finalidade que está reservado um dos cômodos do apartamento do professor, maestro e fã de rock, Gleison Wojciekowski. A coleção de LPs encanta qualquer amante do estilo musical, desde os álbuns mais famosos como “The Dark Side Of The Moon”, do Pink Floyd e “Nevermind”, do Nirvana, até “Sessão das 10”, tendo Raul Seixas como integrante do grupo “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista”, e “Rock Grande do Sul”, disco que colocou o rock gaúcho no mercado brasileiro da música com Engenheiros do Havaii, TNT e Garotos da Rua.
A ligação de Gleison com o rock surgiu na adolescência quando o gênero musical era o mais popular nas décadas de 80 e 90. Seguindo os passos do pai, o músico Ireno, ex-integrante do grupo “Los Calientes”, Wojciekowski participou de várias bandas de garagem em Erechim, fazendo covers e tocando estilos de rock progressivo. “Meu fascínio pelo rock vem dessa construção. Tocar em bandas de garagem foi importante para me tornar um músico profissional e conhecer outras gerações anteriores a minha”, afirma o maestro.
A coleção
As estantes não tiveram espaços para acomodar a quantidade de discos de vinil e foram embaladas em caixas de papelão. Durante a entrevista, Gleison foi retirando algumas capas que considera mais importantes e tem mais apreço. Da difícil seleção, surgiu LPs de Ramones, Pink Floyd, Iron Maiden, Rita Lee e Janis Joplin.
Para um fã de carteirinha, escolher apenas uma banda ou artista é uma dura missão. Não foi diferente para Wojciekowki que considera, entre os primeiros da lista, Deep Purple e Van Hallen como referência em sua vida.
No Brasil
Os precursores do rock no país foram a Jovem Guarda. O gênero se expandiu e não escapou de ser alvo durante o regime militar. Gleison tem a prova em mãos da censura cometida na época.
O disco da Banda Blitz teve as músicas, "Cruel Cruel Esquizofrenético Blues" e "Ela Quer Morar Comigo na Lua”, reprovadas pela Justiça, em 1982. Como o grupo já tinha solicitado a produção dos materiais antes da decisão jurídica e não havia tempo para reverter, os primeiros 30 mil LPs foram riscadas manual para anular as duas faixas.
Quase 11 anos antes, a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, grupo composto por Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada, passava pela mesma peneira da censura. O álbum “Sessão das 10” foi recolhido pelo governo após o lançamento. É um disco desejado por muitos colecionadores e Gleison se orgulha em tê-lo no seu acervo.
Rock Grande do Sul
O estilo chegou tímido e limitado em terras riograndenses. Foi impulsionado pelas rádios Atlântida FM e Ipanema FM.
O momento histórico para o rock gaúcho ocorreu em 1985, quando foi realizado o festival Rock Unificado. A performance das bandas agradou o produtor da gravadora RCA que estava em busca de talentos para gravar uma coletânea.
O álbum “Rock Grande do Sul” juntou Engenheiros do Havaii, TNT, Os Replicantes, DeFalla e Garotos da Rua, e rompeu as fronteiras do estado e conquistou os brasileiros.
Erechim Roll
A febre da Jovem Guarda contagiou os Erechinenses. Segundo Wojciekowski, “a geração do meu pai, hoje são jovens de 70 anos, com a beatlemania e a Jovem Guarda, liderados pelo Roberto Carlos, Erasmo Carlos e a Wanderléa, virou uma epidemia. Então, encontramos muitas bandas daqui seguindo a mesma onda da Jovem Guarda”, afirma o professor.
O rock passa de geração para geração e influenciou até o produtor musical, Renato Guedes, que na adolescência ficava dando voltas no quarteirão ouvindo AC/DC até chegar no colégio. Guedes destaca a importância do gênero como “gigante” e “o mundo não seria o mesmo sem o rock ‘n’ roll”.
O estilo sonoro influencia diretamente na sua profissão. O produtor musical utiliza como referência “timbres e fraseado melódico que remetem aos primeiros guitarristas de rock dos quais fui fã”. Guedes ainda cita os Beatles como referência, “principalmente por ter ido além do rock”.