Ao ler a coluna “O suporte da Memória” do historiador e professor da Unicamp Leandro Karnal, publicada no último final de semana, deparei-me com dois trechos que vem ao encontro dos últimos textos escritos nesta coluna. o primeiro excerto remete ao papel do papel para a história e para a memória:
Há 200 anos, um papel poderia ser lido e comparado aos de séculos anteriores. Aliás, feitos com base de linho e outras fibras, os papéis do Renascimento eram mais permanentes do que os de celulose, mais atuais. O papiro egípcio pode ser lido por especialistas. Está lá, 3 mil ou 4 mil anos depois, acessível.
Karnal compara o papel com o CD e com o VHS e sua obsolescência frente aos avanços da tecnologia. É provável que alguns leitores nem lembrem mais o que significa o verbo rebobinar. No Arquivo Histórico temos uma série de fitas K7, VHS, CDs e DVDs acondicionados de maneira que mantenham suas características originais, o que lhes imputa uma desvantagem com relação a seus sucessores, que nos remete ao segundo fragmento da coluna que selecionamos:
O salto analógico-digital é possível, com mais trabalho e dinheiro. A perda da memória possui o critério tradicional do tempo. Desponta novo obstáculo: o suporte técnico. Decifração de técnicas antigas demanda novos Champollions, sem uma pedra de Roseta confiável. A amnésia pode derivar da falta de leitores adaptados.
Neste sentido, a dificuldade técnica de reproduzir mídias antigas é algo que suscita um paradoxo, ao menos para este escriba, partindo do pressuposto que tais informações podem se perder por falta de um leitor, como preservar algo que pode se tornar obsoleto logo ali a frente?
Com o papel, acondicionando-o em pasta, caixas e envelopes aliado ao manuseio controlado / realizado com EPI’s, eles durarão por períodos longos, como vimos no primeiro excerto da coluna de Leandro Karnal.
Os avanços tecnológicos são irrefreáveis e, provavelmente com poucas chances de retroceder. Com isso, pensar no que preservar é uma tarefa espinhosa. Tecnicamente falando, nunca se produziu tantos documentos e com relação ao descarte, a máxima é a mesma. Dito isto, avistamos no horizonte as questões que nortearão as gestões de acervos: para que(m) preservar?