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Opinião

Você se sente sozinho? Você não está sozinho nisso.

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Por JF Martignoni
Foto Divulgação

Escritor e publicitário.

Segundo pesquisa da Cigna Healthcare, 3 em cada 4 adultos se sentem sozinhos, principalmente jovens adultos de baixa renda e pais solteiros. 22% dos millennials reportaram não terem nenhum amigo, e 27% nenhum amigo próximo. Essa pandemia da solidão que se agravou com o lockdown do covid e se manteve após a volta as rotinas é no mínimo um momento triste da história da humanidade.

Os antigos gregos já sabiam do alto valor da amizade. Para eles que existiam três tipos de amor: ágape o amor de Deus pelo homem e do homem por Deus; Eros o amor romântico da paixão, retratado exaustivamente no mundo das artes; e Philia o amor que sentimos por amigos e familiares. Aristóteles separou os tipos de amigos em três grupos: amigos de prazer, aqueles que você ama pela diversão que tem com eles; os amigos de utilidade que são aqueles ama pelo que podem fazer por você; e os amigos de virtude aqueles que você ama pelo que são, por suas virtudes, e você se preocupa com as necessidades deles e não apenas as suas, que para o filósofo é a verdadeira amizade.

Para Aristóteles, esta verdadeira amizade envolve preocupação mútua, você pode alegrar-se com a felicidade de seu amigo, e sofrer com suas perdas, e vice versa. Também há intimidade, onde nós abrimos para aqueles quais confiamos sem ter medo de parecer vulneráveis e também os ouvimos sem julgamentos, mas compreensão, empatia. Nos laços mais fortes dessa amizade, a empatia por eles se torna um espelho, e descobrimos mais de nós mesmos conversando com aquela pessoa, nossos defeitos e qualidades. Há também a atividade que gostamos de praticar com eles, como esportes, música ou culinária, mas estas atividades precisam ser feitas pelo prazer de faze-las com quem gostamos e não por alguma vantagem envolta nisso.

Agora que abordamos a filosofia da amizade, vamos ver o que os estudos científicos tem a nos dizer. Segundo estudos da Mayo Clinic, adultos com fortes laços de amizade, tendem a sofrer menos com depressão, baixa autoestima e stress. Já pessoas sem laços profundos de amizade tendem a ter uma maior pressão arterial, predisposição para distúrbios mentais e abuso de substâncias. Pessoas que vivem muito sozinhas tem o mesmo risco de infarto que fumantes, a solidão pode literalmente te matar. Então por que algo tão bom e que nos faz tão bem anda ficando cada vez mais escasso?

O sociólogo Zygmunt Bauman, argumenta em sua visão de modernidade líquida, que no mundo do capitalismo global somos gerenciados pela incerteza e insegurança, o que nos leva a ter vínculos frouxos que podem ser desfeitos sem grande esforço e sem gerar grande sofrimento. A acadêmica Noreena Hertz, contempla que ainda estamos lidando com os efeitos do neoliberalismo que nos faz ver as pessoas como competidores e não colaboradores, que somos consumidores e não cidadãos, acumuladores e não compartilhadores, temos que tomar as coisas e não dar elas, batalhar e não ajudar. Se estamos ocupados demais para ajudar alguém, como podemos ter amigos?

Além disso, contamos com um aumento de custo para frequentar lugares de interação social, como bares, salões de beleza, shows e até festas de comunidade. O que deixa muitas pessoas sem acesso a lugares para aliviar o stress, confraternizar e criar novos laços. Ou seja, se não pode pagar dezessete reais em um chopp ou mais de oitenta reais para um jantar, suas opções de interação social além do trabalho e casa são bem limitadas.

Você pode estar se perguntando se o contato digital com outras pessoas que não existia até pouco tempo atrás não nos ajuda a estar mais conectados com os outros. Pode parecer que sim, mas segundo estudos da PSYCOM, pessoas que acessam as redes sociais mais que cinquenta vezes por semana tem três vezes mais chance de se sentirem isoladas e alienadas que pessoas que acessam menos que nove vezes por semana. Em outro estudo da mesma companhia descobrimos que apenas estar no seu celular durante interações sociais reduz a diversão que pode ter naquele momento pela metade.

Apesar das redes sociais poderem possibilitar contato com pessoas que não poderíamos de outra maneira, pela maneira de retratar uma vida perfeita nelas, negligenciamos aspectos importantes de vínculos fraternos. Além de que menos laços de amizade representam laços mais fortes, enquanto grandes números levam a superficialidade. Então como ser amigo dos seus quinhentos ou quinhentos mil seguidores? Muito rasamente é a única maneira.

Ainda existe amizade, mas está cada vez mais distante da mútua preocupação e crescimento idealizado pelos gregos. Se isto será para melhor ou pior, só o futuro dirá. 

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