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Opinião

A garimpeira e o Museu de História da Uri

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Neusa Cidade
Por Neusa Cidade Garcez
Foto Divulgação

Historiógrafa - Escritora e

Mestre em História Ibero Americana - URI

Membro da AEL

Por vezes me perguntava qual a causa, o motivo que me fazia ser tão zelosa, tão preocupada com os casarões que existiam, com as praças, as igrejas, as colunas que ornavam alguns edifícios. Havia sincera emoção em observar as árvores (de todos os lugares) mas em especial as da nossa cidade; as calçadas em pedra portuguesa e a lástima quando reformadas, o eram com pedras diferentes. Tudo no ambiente, na paisagem mereceu sempre meu sentir muito atento.

Pensando no assunto, certa noite descobri a causa do meu modo de ser: meu pai. Pai Anacleto preservava e valorizava tudo. Guardava tudo limpinho em caixas fabricadas por ele, e enfeitadas, nada simples e grosseiro nas suas caixas e caixinhas

Encontrava um prego torto, o endireitava e guardava na caixa “Pregos”. As tachinhas, escovas de dente velhas, idem. Dizia que podiam ser úteis em alguma ocasião. Às vezes, lá vinha meu pai com um pedaço de madeira, ou ripas encontrados no lixo e que serviria para fazer suas belas caixas ou até alguns de nossos móveis lindamente construídos por ele, e que não se podia comprar.

Assim, convivendo com a valorização de meu pai de novas e velhas e pequenas coisas, apaixonei-me pelo resgate, pela pesquisa, pela conservação do “fazer” de nossos antepassados.

Há mais de 28 anos realizo meu trabalho de garimpar locais, casas, pessoas, com buscas, entrevistas gravadas, visitas a cemitérios e a qualquer lugar que proporcione o encontro e o resgate do que busco e importa.

No longo período citado, elaborei o projeto “Remexendo nos Sobrados e Porões: musealização e devolução social”, sempre apoiada pelos diretores da URI.

Nos inícios do projeto, visitei centenas de casas, seus sobrados, seus porões numa garimpagem exaustiva de tudo o que dizia respeito ao viver, ao trabalhar, ao se divertir, ao rezar de nossos primeiros colonizadores. O Museu de História foi se preenchendo com o quarto de dormir e todos seus aparatos como “penico”, porta-chapéus, porta guarda-chuva. Igualmente com uma belíssima colcha, enxoval de uma noiva, confeccionada a mais de 85 anos. Consegui objetos para montar uma cozinha completa dos ancestrais de várias pessoas. Centenas de utensílios de trabalhos no campo e de montar, foram adquiridos pela URI.

Pesquisando em barrancas de rios e principalmente na Volta do Uvá, recolhemos juntamente com o falecido professor Jorge Zanatta, mais de 800 cacos de preciosa cerâmica dos primeiros donos da terra - os indígenas.

Através de meus pedidos, visitas e mais visitas, fui convidada a ir recolher todo um grande acervo de pedras lascadas e polidas de inestimável valor histórico, que fora resgatado pelo ex Prefeito Jaime Lago nos tempos de suas pescarias com amigos.

Também houve o resgate de uma cítara, e dezenas de álbuns de música clássica e popular que compôs o acervo “Prof. Dilson Spinato”, carinhosamente guardado no Museu.

Todo o rico acervo do Museu foi redirecionado para o Campus II, onde aconteceram emocionantes aulas com meus alunos da Faculdade de História. Palestras e visitas davam vida ao Museu, que por necessidade de espaço para novos Cursos, foi sendo relocado, ocasião em que peças quebraram, desapareceram, diminuindo assim o tamanho do Museu.

Porém, novos ares de esperança, compreensão e dinamismo, sopraram e os diretores Prof. Giollo, Prof. Sponchiado e Professor Adilson apoiaram e aprovaram novo projeto para futuras instalações do Museu Histórico da URI. O projeto foi sonhado pela professora de História, a garimpeira e posto no papel e nos trabalhos por Sara Roesler, Coordenadora da Arquitetura e Urbanismo da URI, Cristiane Tozatti, aluna, hoje formada em Arquitetura e Urbanismo; pelas professoras Alessandra Dalla Rosa da Veiga, Áurea Coldebella, Giovana D. R. Dariva e Tainete Perin. Juntas veremos o sonho concretizado, em futuro breve. Será a coroação de nossos esforços, dedicação e respeito ao Patrimônio.

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