Faltando cerca de uma semana para o Dia das Mães, uma das datas comemorativas mais importantes do ano, diversas histórias marcantes vêm à tona. Contos que, muitas vezes ficam guardados apenas na memória de quem vivenciou.
Como um presente do destino, para uma emotiva nata que adora conhecer a trajetória de vida das pessoas, chegou até minhas redes sociais a sugestão de contar sobre a vida de Marli de Paula, moradora de Erechim que residia em Viadutos no período mais difícil que já enfrentou até hoje.
O início de tudo
Marli era uma jovem recém-casada de 26 anos, cheia de expectativas, que teve dois filhos, Lucas, o mais velho e José. Quando o caçula tinha seis anos, acabou se separando do marido, mas seguiu com determinação trabalhando como professora e se dedicando a criação dos meninos, que dependiam muito dela.
Após algum tempo, José apresentou sintomas incomuns, que levaram um médico oncologista de Erechim, iniciar algumas investigações. Depois de tanto investigar, José recebeu o diagnóstico de um câncer muito raro. “Quando ouvi essa notícia, por duas horas perdi o chão e fiquei em choque, mas pensei, éramos apenas três, eu por eles e eles por mim, ‘arregacei’ as mangas e fui à luta”, conta a mãe.
A criança foi encaminhada para Santa Maria, onde passou por mais exames. Após 12 dias internado, durante o mês de dezembro, a professora lembra que a cidade estava toda em clima de Natal, e sentia uma esperança de que tudo ficaria bem. Infelizmente, ela estava errada. “Ele tinha sete anos na época. Voltamos para casa para comemorar o nascimento de Jesus e em alguns dias recebemos o resultado dos exames, que confirmavam um linfoma grave e muito raro”, revela.
Nova etapa
Após a notícia, mãe e filho foram encaminhados para Porto Alegre, e passaram a ser atendimentos pela equipe do Hospital das Clínicas. “Lá realizamos mais exames e todos os resultados que recebíamos eram ruins. Iniciamos a quimioterapia e a cada protocolo, ele piorava, pois a imunidade baixava muito. José chegou a ficar 30 dias com febre em função do tratamento”, expõe.
Marli lembra que, em uma oportunidade José a questionou se também perderia o cabelo, como as demais crianças que estavam internadas. “Naquele momento fiquei tão abalada que me segurei para não chorar. Com muita força expliquei todo o processo a ele, pois era uma criança curiosa e queria saber de tudo”, ressalta.
Novas possibilidades
Passaram-se três anos do tratamento e nada se resolvia. Conforme a professora, os médicos não sabiam mais o que fazer, pois a criança não reagia a nada. “Sempre insistia dizendo para não deixarem de tentar. Lembro que pedia para o José como ele se sentia e mesmo visivelmente debilitado ele respondia que estava bem, sem conseguir falar e respirar direito”, lamenta.
Em uma oportunidade, um dos responsáveis sugeriu a Marli um experimento que havia sido feito em um caso semelhante no Japão, o transplante de medula. “Pedi para o doutor se a criança havia sobrevivido, e ele me disse que não sabia, hoje eu sei que infelizmente não”. Mesmo sendo um ‘tiro no escuro’, a mãe não tinha outra opção, vendo o filho piorando a cada dia.
“Meu irmão vai me salvar”
Antes de confirmar a decisão, Marli e o médico pediram para José como ele se sentia, minutos antes de explicar sobre o procedimento. Tamanha foi a surpresa dos dois, quando ele respondeu: ‘não se preocupe doutor, meu irmão vai me salvar’. Quando o médico saiu a mãe chorou, ligou para a irmã e pediu para que ela trouxesse Lucas, seu outro filho.
Todos os testes foram realizados e detectaram que Lucas era compatível. Segundo a mãe, foi o primeiro transplante realizado no Estado, em que o doador participou do momento da transfusão. “Até então, tudo corria muito bem, mas 15 dias depois, deu uma espécie de AVC no Zé, pois ele era alérgico a medicação que estava recebendo pós cirurgia”, relembra.
Desafios continuaram
O que Marli não imaginava é que mais desafios estavam por vir. “Naquele momento só queria saber se ele estava vivo e quando responderam que sim, tive a certeza de que ele sairia dessa. Após um longo período, voltamos para a casa e um ano depois, José teve esclerodermia, uma rejeição tardia do procedimento em que a pele enrijece e junto com ela, órgãos como o pulmão também se modificam”, revela.
A saga continuou, quando a mãe e o filho precisaram voltar ao hospital. O menino foi encaminhado para a UTI e respirava com a ajuda de aparelhos. “Era lamentável ver ele daquele jeito, e a partir desse dia tive coragem de pedir para Deus para leva-lo, para que ele pudesse descansar e ficar em paz”, conta a mãe, emocionada.
O milagre
Com pouca expectativa de vida, José solicitou a mãe que voltassem para casa, de avião, como era seu sonho. Com muita coragem Marli conversou com os médicos e viabilizou a viagem, mesmo com pânico do transporte aéreo. “Quando chegamos em casa, ele estava muito agitado e pensei que naquela noite José morreria. Orei e pedi à Deus que não me deixasse dormir, para que pudesse passar o último dia sozinha ao lado dele. Quando acordei, me desesperei por pensar que tinha perdido meu filho, mas pus a mão sobre ele, e estava quente. Naquele momento ele acordou e pediu para ir ao banheiro, e assim o fez, sem a ajuda de ninguém”, relata.
Daquele dia em diante, José foi ganhando cada vez mais autonomia, e reagindo. “Voltamos para Porto Alegre, ele entrou no consultório caminhando e o doutor quase não acreditou. Foi um milagre, meu filho estava curado”, comemora.
Atualmente, Marli mora com o filho José, que hoje é formado e atua como T.I. “Estamos super bem, ele ainda passa por testes médicos anualmente de acompanhamento, mas tudo está dentro do esperado. Meu filho mais velho mora em Florianópolis, mas com frequência vem nos visitar. Foram 13 anos que não vivi para mim, mas para ele, a mãezinha do Lucas e do Zé”, finaliza emocionada.