Médico, escritor, membro da Academia Erechinense de Letras e presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Pública do Estado.
Ultimamente, o Sapateiro de Bruxelas andava um tanto diferente nas suas tradicionais manifestações, na roda de cafezinho. Os amigos de sempre indagavam sobre os novos ares e fumos do artesão, algo taciturno e enigmático.
Entre um café e outro, o belga insistia que, embora considerando-se discípulo convicto de Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga, nos últimos tempos dedicara especial atenção e apreço à obra de Sócrates, outro luminar do pensamento clássico grego.
Segundo o belga, que adora compartilhar seus conhecimentos, ainda que superficiais, sobre assuntos aleatórios, Aristóteles era um empirista, ou seja, baseava as suas teorias em experiências práticas e lógicas. O conhecimento deveria transitar pelo intelecto puro – ou razão - além de alcançar os sentidos corporais.
Sócrates, contemporâneo e mestre de Aristóteles, como também de Platão, diferentemente, não se caracterizava pela simples clareza ou ideias diretas. Sua filosofia baseava-se em diálogos profundos e indagações complexas, que conduziam a pensamentos abstratos e reflexões íntimas, como por exemplo, o sentido da existência das pessoas e do mundo.
Aqui o artesão abre um parêntese e lembra de certo tio, pelo lado materno, que sem o brilho do notável pai da filosofia, é considerado, deveras, chato e redundante por usar a mesma tática questionadora similar à metodologia socrática - infindável e insuportável, segundo alguns primos maledicentes.
Para confirmar a veracidade da narrativa familiar, recorda que, nos encontros domésticos festivos, esse querido parente é conhecido como “desmancha bolinhos”.
Fato é, que em suas digressões semanais, o belga vinha apresentando questionamentos nada comuns tais como: - O que vem depois da morte? De onde viemos e para onde iremos? Enfim, o que é a vida?
Com frequência citava e recitava Shakespeare, o bardo inglês, e o dilema hamletiano: “To be, or not to be, that is the question”, ou em português, “Ser ou não ser, eis a questão”. Evocava ainda o filósofo e matemático francês Descartes: “Cogito ergo sum”, em geral traduzida como “Penso, logo existo”. E viajava com seus devaneios até Horácio, poeta romano, igualmente citado no mais puro latim: “Carpe diem, Quam minimum crédula póstero” ou “Aproveite o dia de hoje, confie o mínimo possível no amanhã”.
Tal mudança comportamental despertou curiosidade e apreensão ao grupo, que passou a desconfiar de alguma artimanha por parte do ladino calçadista. E não deu outra.
Para alegria e descontração da turma, após causar o impacto esperado no tempo devido, nessa semana retornou à sua extrema objetividade e sense of humour sarcástico tão característicos.
Afirma que depois de muito refletir e conjecturar, chegou à conclusão inarredável da finitude carnal humana, ocorrência cardeal e consumada entre nós, independente de fé ou crença filosófica.
Para o mestre, morreu... morreu... kaputt... não tem volta. Vai mais longe: depois de encerrado o ciclo vital, restam apenas três caminhos bastante objetivos:
Um: a deterioração natural do corpo com direito a dedicatória, como fez Brás Cubas, personagem de Machado de Assis: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Dois: passar por processo de incineração seguido de moagem do ente querido, para posterior destinação apropriada.
Três: afora as opções acima, no momento não lhe ocorre outra disponível, até porque os processos de mumificação, atualmente, não vêm sendo praticados no post mortem, embora, no transcorrer da vida, algumas figuras embalsamadas em beberagens tropicais derivadas da cana de açúcar, não cansem de atormentar a existência alheia. Em caso de dúvida, vide cenário político nacional.
Aliás, por mero acaso, a última múmia morta que lhe vem a memória é a de Lenin, revolucionário comunista que descansa na Praça Vermelha, em Moscou.
Assim dito e aceito por todos como verdade verdadeira, o artífice conclui sua prédica com as seguintes orientações adquiridas a duras penas e vivências plenas:
Primeira: “Conhece-te a ti mesmo”, princípio filosófico socrático, e passe a vida com pessoas que façam você se sentir bem, não com pessoas que você precise impressionar.
Segunda: viva livre das expectativas dos outros e perdoe para ser perdoado. Ter muitos amigos é não ter nenhum, ensinou Aristóteles.
Terceira e última orientação repetida: carpe diem, porque a vida é uma só e ninguém sabe o que vai acontecer amanhã ou depois.
Afinal, até as situações mais complicadas, com o tempo, podem se tornar engraçadas, e convenhamos, nada é tão ruim que não possa piorar.
Ao despedir-se, o Sapateiro de Bruxelas evoca, novamente, Sócrates e sua máxima: “Só sei que nada sei”. E remata sua prosa com Gênesis 3:19: “Do pó viestes e ao pó voltaras”.