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Opinião

Proust, tempos perdidos e tempos ganhos

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Gilberto Schwartsmann, Mário Cavaletti e Alcides Mandelli Stumpf, na abertura da Mostra de Proust, e
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Marcel Proust foi um ensaísta, crítico literário e grande romancista francês. Sua obra-prima À la Recherche du Temps Perdu, ou, Em Busca do Tempo Perdido, composta de sete volumes, o coloca entre os maiores escritores do Século XX e da literatura mundial.

Batizado Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust, nasceu na casa de seu tio-avô, em Auteuil, na elegante Zona Sudeste de Paris, no dia 10 de julho de 1871, pouco depois do final da Guerra Franco-Prussiana, época marcada pela violência e grandes revoluções. Faleceu de complicações pulmonares, em seu apartamento, em Paris, a 18 de novembro de 1922.

Seu pai, Adrien Proust, foi um médico renomado, epidemiologista escreveu inúmeros livros e artigos sobre medicina e higiene; sua mãe, Jeanne Clémence, vinda da Alsácia, de família judaica muito rica, era extremamente culta e bem humorada. Ambos propiciaram-lhe uma vida luxuosa.

Passou entre intelectuais, artistas plásticos, escritores de diversas procedências, eruditos e militares. Frequentou salões grã-finos da aristocracia francesa decadente e da burguesia ascendente, e também alguns prostíbulos. Viveu intensamente o final do século XIX e nos primeiros anos do século XX. 

Ainda menino, aos nove anos, Proust sofreu sua primeira grave crise de asma. A doença respiratória crônica foi determinante no modo de criação e educação da criança sensível e de saúde frágil.

Os cuidados especiais na infância propiciaram longos períodos de férias na aldeia Illiers, localizada na Região Centro-Vale do Loire, no departamento de Eure-et-Loir. A comuna, que hoje conta com pouco mais de três mil habitantes, juntamente com as lembranças da casa de Auteuil, tornaram-se cenário para a cidade fictícia de Combray, onde acontecem algumas das cenas mais importantes da obra magistral. Por ocasião das comemorações do centenário de seu nascimento, em 1971, em homenagem, a cidadezinha adotou a denominação composta Illiers-Combray.

Na juventude, Proust levou uma vida mundana. Frequentou os salões da princesa Mathilde, de Madame Strauss e de Madame Caillavent, quando conheceu Charles Maurras, Anatole France e Léon Daudet, personagens importantes da época.

Apesar da saúde precária, serviu ao Exército entre 1889 e 1890. No ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito da Sorbonne, onde se preparou para seguir carreira diplomática, porém, logo desistiu para dedicar-se integralmente à literatura. Em parceria com alguns amigos, fundou a revista Le Banquet e começou a desenvolver seus primeiros escritos, com a obra Os Prazeres e os Dias.

Flaubert, Balzac, Baudelaire, Dostoievski, além de Tolstói Stendhal e Poe, entre outros, tiveram grande influência sobre sua arte.

Sua vida e círculo familiar mudou consideravelmente entre 1900 e 1905. Em fevereiro de 1903, o irmão Robert casou-se e deixou a casa da família. O pai faleceu em novembro do mesmo ano. Finalmente, e de efeitos muito mais devastadores, a querida mãe de Proust morreu em setembro de 1905. Após tantas perdas, a saúde tropega deteriorou-se ainda mais. Passou a viver recluso e esgotar-se no trabalho.

Isolado do meio social, dedicou-se à criação de sua obra-prima Em Busca do Tempo Perdido, que se tornou um dos romances mais inovadores, influentes e importantes da literatura mundial. O livro, tanto pelo tema quanto pela forma, revolucionou a prosa escrita do século XX – tendo chegado ao Brasil em 1948, pelas mãos da Editora Globo – que delegou ao poeta gaúcho Mário Quintana a tarefa de traduzir os quatro primeiros volumes da obra do escritor francês.

Proust passou os últimos três anos da sua vida confinado em seu quarto, dormindo durante o dia e trabalhando à noite para concluir seu grande livro. Morreu de pneumonia e abscesso pulmonar em 12 de novembro de 1922, sendo enterrado no cemitério Père Lachaise, em Paris.

Em À la Recherche du Temps Perdu, Proust baseia-se em uma concepção de memória relacionada com uma visão filosófica do tempo, na qual as recordações põem, frequentemente, no mesmo plano o passado e o presente. O imenso e precioso relato, dá vida a inúmeros e complexos personagens e retrata fielmente, às minúcias, o ambiente da alta sociedade parisiense da época. 

“A riqueza da invenção proustiana consiste em contar com a dimensão temporal a sua maneira, isto é, esquecendo o fluxo cronológico do tempo. Parecido com o que realiza o analista no divã, o narrador mostra uma lógica dos acontecimentos que não depende das reminiscências no sentido platônico do termo, mas de uma memória simbólica ou lógica que, a partir de uma primeira lembrança, tenta se constituir”, explica o professor aposentado da USP de formação psicanalítica, Philippe Willemart, estudioso do autor.

A obra monumental, considerada o livro mais longo de todos os tempos, com aproximadamente nove milhões seiscentos mil caracteres gravados em três mil páginas, é composta de sete volumes: No Caminho de Swann, de1913, À Sombra das Raparigas em Flor, publicada em 1919, que ganhou o Prêmio Goucourt; depois vem O Caminho de Guermantes, em 1921, Sodoma e Gomorra, de 1922. Os três últimos livros, A Prisioneira, A Fugitiva e O Tempo Redescoberto foram publicados depois de sua morte, pelo irmão Robert, respectivamente, nos anos de 1923, 1925 e 1927. Extensas partes de Em Busca do Tempo Perdido dizem respeito às grandes mudanças sociais, políticas e econômicas da época, mais particularmente o declínio da aristocracia e a ascensão das classes médias na França durante a Terceira República e o fin de siècle.

Além de reflexões sobre amor, arte e a passagem do tempo, a homossexualidade é recorrente no texto proustiano. Foi um dos primeiros romancistas da Europa a tratá-la de forma aberta e detalhada. O tema permeia praticamente toda obra, especialmente em Sodoma e Gomorra e nos volumes seguintes.

Embora Proust fosse homossexual, o narrador que se descreve como heterossexual suspeita constantemente das relações da sua amada Albertine com outras mulheres. Também Charles Swann, figura central de boa parte do primeiro volume e proeminente em todo conjunto, tem ciúmes da sua amante Odette de Creci, com quem mais tarde casará. Odete acaba por admitir ter realmente mantido relações sexuais com outras mulheres.

Alguns personagens secundários, porém, de significativo realce, como o Barão de Charlus, inspirado em parte pelo famoso Robert de Montesquiou, são abertamente homossexuais, enquanto outros, são mais tarde apresentados como homossexuais não assumidos. No dizer do crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras, Álvaro Lins (1921 – 1970), o tema constitui “a realidade transportada, transformada e transfigurada numa visão estética”, na qual a vida do autor se refletiu.

De igual modo, o papel da memória é central no romance. Quando a avó do narrador morre, a agonia de Proust é retratada como um lento desfazer. No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor utiliza uma analepse e faz com que o narrador recue no tempo das suas memórias, em episódios desencadeados por recordações de cheiros, sons, paisagens ou mesmo sensações tácteis.

Seus temas, tempo e memória, fazem parte da vida de todos nós. A memória é, para Proust, a forma como o tempo é capturado em estado puro e, nos momentos capitais da Recherche, como que faz o tempo parar – uma sensação difícil de descrever, mas conhecida por todos os seus leitores.

A obra Em Busca do Tempo Perdido foi levada para o cinema. Em 1984, Volker Schlondörff lançou Um Amor de Swann, adaptado de um trecho do primeiro volume. Em 1999, Raúl Ruiz lançou O Tempo Redescoberto, com Catherine Deneuve e Marcello Mazzarella. Em 2000, a belga Chantal Akerman lançou A Fugitiva, adaptada do sexto livro.

O precioso conteúdo, em diferentes formatos, segue percorrendo o mundo. Para deleite dos sul-rio-grandenses, e brasileiros de modo geral, uma das mais belas e completas exposições de Proust – desde seu passamento até o presente – esteve em cartaz na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul até 18 de março de 2023.

Intitulada Caminhos de Proust – 100 anos depois, a exibição teve como curador/idealizador o profundo conhecedor da obra proustiana Gilberto Schwartsmann, numa parceria que reuniu, ainda, a Secretaria de Cultura do Estado do RS, Gerdau, Unimed e Cavaletti, com o apoio Associação de Amigos da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul.

Que fortuna foi experienciar Proust em nossa Biblioteca, passeando pelas reflexões e caminhos do autor francês, respirando suas fragrâncias, comendo suas madeleines e bebendo de seu profundo saber.

O belíssimo catalogo da mostra, patrocinado e editado pela Edelbra, pode ser encontrado no Site da Biblioteca, https://.bibliotecapublica.rs.gov.br/news/.

Cabe um agradecimento especial à Cavaletti e Edelbra, empresas genuinamente de Erechim, bem como a Gerdau e Unimed RS.

Eis, portanto, o nosso tempo. E, graças a união público-privada, podemos dizer que é um “tempo ganho”, repleto de boas memórias.

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