Em meados de 2001, quando comecei a escrever a coluna Pente Fino, criei um quadro que publicava uma vez por semana, chamado “Ouvido & Orelha”.
Eram dois idosos, com mais 70 anos. Ouvido era de direita e Orelha era de esquerda, ou vice-versa. Eles sentavam todo dia (quando não chovia), num banco da Avenida Maurício Cardoso em Erechim. O diálogo dos dois envolvia política local, estadual e nacional, cada um defendendo o que acreditava. Gritavam, se xingavam, argumentavam, contra argumentavam, mas na hora de ir embora se despediam cordialmente, como tem que ser as relações humanas.
Naquela época a internet dava os primeiros passos em Erechim, graças ao trabalho da ST Online, do Gaetano Albertoni, que hoje reside em Porto Alegre. A internet era discada, para baixar um e-mail (sem fotos), demorava meio dia e se ficava sem a linha telefônica.
Quem me inspirava muito nesse quadro com dois personagens fictícios (com histórias reais), era o saudoso Helly Parenti. Parava no hotel e conversava com ele quase todos os dias. Eu começando a escrever uma coluna política, nem piscava quando ele falava. E juntando aqui, ali, formatava o quadro “Ouvido & Orelha”.
Nunca tinha escrito sobre esse quadro, que durou alguns meses e acabou sendo engolido pela tecnologia e a exigência do dia-a-dia do jornalismo, quando as fotos deixaram de ser reveladas e passaram a ser digitais, e tudo que veio junto com isso, onde parar para conversar, perder um tempo para o conhecimento, é um luxo difícil de se ter nas enxutas redações atuais.
Ainda irei resgatar os diálogos desses dois, para mostrar que é possível viver em sociedade, mesmo discordando. Basta respeitar o próximo.