14°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

A Moça ao Entardecer

teste
Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Ela estava absorta e disposta a nada além de olhares plácidos. Mirava o mar no horizonte como se olhasse languidamente para dentro de si. Nos intervalos, seus olhos seguiam os voos rasantes das gaivotas e o crispar das espumas das ondas que vinham esparsas docemente lamber seus pés. Tudo era silêncio, reverência e afeição, exceto o rumor das águas no eterno vai e vem, o pulsar da vida, a corrente da maré.

A luz do sol, a oeste, se apagava entre as dunas douradas às suas costas. A atmosfera era rósea e morna.

O sol, já menos agressivo, luzia sobre a areia que exalava um leve vapor inebriante.

O brilho do mar sumia na borda do mundo, ofuscado pela névoa rastejante.

Tudo era harmônico, natural. Cada parte das coisas vivas ou mortas, pareciam ter um objetivo comum, um certo sentido, um nexo causal. Talvez um nexo espiritual.

Enfim veio o poente, e o crepúsculo com seu manto violáceo, aos poucos, envolveu o céu, o oceano, e tudo que demais existia. A escuridão, por um momento, emergiu majestosa e acolhedora qual útero materno.

Na orla, luzes foram surgindo amareladas, uma aqui, outra ali, outra acolá, de modo a formar um imenso colar dourado que se estendia ao longo da praia. As contas eram feitas de casas, poucos edifícios e bares que começavam a se agitar. O fulgurante pingente era materializado pelo velho Farol, que teimoso insistia em piscar qual falso brilhante, sobreposto à falésia descomunal. Visto dali, lembrava um gigantesco pirilampo.

Havia um toque de insanidade e gracejo lúgubre vindo das ondas que à noite pareciam feitas de matéria sedosa e lamacenta, e que emergiam e rolavam sobre si mesmas, preguiçosas e ameaçadoras em seu convite aterrador.

A voz rouca e repetitiva da arrebentação, de tempos em tempos, soava mais intensa e grave, como um afago desajeitado; lembrava a fala mansa e lamuriosa da irmã que partira há anos.

Sua ociosidade e isolamento - mais que nunca – compunham aquela paisagem escura. Tinha como companheiro o mar oleoso e o breu uniforme que se estendia na direção do infinito. O novo momento a apartava da verdade das coisas concretas; sobravam-na somente desilusões e saudades absurdas e lamentosas.

Ao longe surgiu um barquinho cintilante, e suas luzinhas fizeram brilhar vagamente seus olhos verdes apagados.

A imensidão do mundo fazia parte de si, e ela já não ocupava lugar no espaço: não era areia, nem vento, nem nada. Não era caranguejo ou sequer tatuí, muito menos água viva. Estava só e avulsa ante a existência.

Finalmente não precisava explicar a ninguém o porquê de ali estar.

Nada acontecia e nada aconteceria. Nada poderia ser mais redentor e verdadeiro que sua absoluta inutilidade e solidão. Fazia-se imortal.

Publicidade

Blog dos Colunistas