Ao longo das crônicas referentes à Festa do Milho, citei em vários momentos que o período histórico se apresentava como o de consolidação de uma identidade nacional, de uma brasilidade que até então era fragmentada. Remexendo em minha biblioteca, acho um livro que retrata de maneira lúdica este período.
As Aventuras de Tibicuera de Érico Veríssimo escrito em 1937, teve trinta edições enquanto o autor ainda era vivo. Foi concebido como um livro infanto juvenil e, portanto, é um livro relativamente pequeno, com cento e cinquenta páginas e divido em capítulos não superior a três páginas.
Este romance infanto juvenil que conta a história de Tibicuera um índio nascido em 1492 que era feio e fraco, características pouco úteis aos guerreiros Tupinambás, que levaram seu pai a quase jogá-lo no mar. Quase. Seu progenitor em um segundo de pena não completou o ato, e o levou para a tribo. Fraqueza deixou de ser uma característica de Tibicuera já adulto, e neste cenário se desenrola a trama.
De acordo com Zugno (2007, p. 62) a intenção de Érico Veríssimo [...] era enfatizar que a história de Tibicuera era a mesma história do Brasil e, por extensão, a mesma história do povo brasileiro. Em algumas edições, o autor também acrescentou uma segunda frase, que era “a luta de três raças para formar uma nação e realizar o seu destino”, deixando bem clara a função ideológica implícita, que era criar uma identidade entre a história e o leitor.
O povo brasileiro. Até hoje muitos alardeiam a expressão povo brasileiro, matreiramente escolhendo quem cabe nesta designação. Quando temos o processo de imigração na região, critérios são estabelecidos para o acesso à terra, e, portanto, para adentrar no seleto grupo chamado povo brasileiro. No governo Vargas, isso fica ainda mais explícito. É preciso banir tudo aquilo que nos afasta da designação.
Portanto, na obra, quando avaliamos o efeito catártico que Tibicuera oportunizava, indiscutivelmente se explicita o modo pelo qual o governo Vargas pretendia que a sociedade se visse: sua intenção era promover uma identidade, alicerçada numa história comovente já no seu início, e cheia de aventuras de um personagem saudável, atuante e puro, que tivesse em suas ações mais ganhos do que perdas, coroada ainda com um final feliz." (ZUGNO, 2007, p.76).
Tibicuera além de retratar o período em que foi escrito, oferece aos leitores elementos que reforçam o estereótipo do indígena e a importância da leitura / cultura para a civilidade. Verissimo ainda nos brinda com uma crítica à forma como se vê e analisa a cultura dos indígenas ao longo da história. Não à toa, passados oitenta e cinco anos de seu lançamento, vemos tais posturas ainda cristalizadas na mentalidade do “povo brasileiro”, aquele, que normalizou o ocorrido com os povos Yanomamis.
O autor ainda disserta sobre a aculturação que Tibicuera sofre até se tornar “doutor”. A obra é um recurso interessante para compreender de maneira lúdica os acontecimentos históricos que acarretaram na consolidação das narrativas oficiais, da escolha de quais grupos podem receber a alcunha de “povo brasileiro” sem ser de maneira pejorativa e por que ainda enfrentamos resistência para compreender o outro.
Referências
VERÍSSIMO, Érico. As Aventuras de Tibicuera, que são também as do Brasil. 31 ed. Porto Alegre: Globo Editora. 1987.
ZUGNO, Ana Lucia Ioppi. Usos da Literatura Infantil no Estado Novo: o caso de: as aventuras de Tibicuera. 2007. 91 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Ppg Educação, Unesc, Criciúma, 2007.