Reminiscências
Quando os imigrantes alemães aqui chegaram encontraram situação muito diferente do seu país de origem. Novas condições de vida afetaram a sobrevivência. Vindos, a maioria, de uma região muito pobre da Alemanha- o Hunsrück- desde 1824 até o final do século XIX, tiveram que aproveitar o pouco que o ambiente lhes oferecia. Os seus hábitos alimentares logicamente mudariam para sempre.
A cozinha alemã
A cozinha alemã, como a própria Alemanha, é forte e marcante. Há muita coisa defumada, muito tempero, muito sabor. Basicamente ligada ao campo e aos alimentos de gosto substancioso, como a salsicha, o porco, a vitela, o repolho e o creme de leite, ela vem se mesclando e se curtindo ao fogo lento da História. Ela preserva estilos diferentes. Nela encontramos o refinamento de jantares em castelos – quem gosta de castelos não pode deixar de conhecer a Alemanha- à exuberância popular e contagiante das cervejarias.
Um país chamado Alemanha
Pensa-se nela como um país de tradição monolítica que vai do Mar Báltico à Floresta Negra. Na realidade, a Alemanha moderna- há pouco ainda dividida em duas- é formada por regiões que há algum tempo gozavam de graus variados de autonomia. Conquistada por celtas, romanos e teutônicos, nos seus milênios de história, ela se encheu de castelos, muralhas e fortificações, de pequenas e românticas cidadezinhas medievais, onde reis, rainhas, nobres, camponeses e, mais tarde, operários, viveram e criaram uma das mais poderosas culturas que hoje conhecemos. Lindas regiões idílicas no campo, com suas casas assombradas de estilo enxaimel- harmonização de madeira e concreto- janelas coloridas se abrindo para canteiros de flores e campos sempre verdes, bem tratados, em contraste com grandes e cinzentas cidades industriais.
Como era a alimentação na Alemanha
Os germanos caçavam, criavam animais e tinham a sua agricultura. A caça era muito praticada. A criação de animais dependia do tipo de vegetação. Nas matas com carvalhos e faias, eram criados porcos e se alimentavam de seus frutos. Nos campos com pastagem, criavam-se bois, ovelhas e cavalos que eram fonte de trabalho e de carne, mas sobretudo de leite e derivados. A agricultura não era muito praticada. Cultivavam cereais- trigo, cevada, aveia, centeio-, legumes e hortaliças- cenoura, repolho, alface, aspargo, alho-poró, cebola, aipo-. O cultivo de frutas era raro, reduzindo-se às parreiras do Rio Reno e do Danúbio. Como bebidas, tomavam cerveja feita com cevada ou trigo e vinho de uvas.
Alimentação na chegada dos alemães no RS
Os indígenas cultivavam o feijão-preto, a fava, o milho, a mandioca e a abóbora. Nas regiões serranas eles se alimentavam, no inverno, de pinhões das araucárias. Nas regiões ocupadas pelos imigrantes açorianos já havia se estabelecido uma culinária própria, muito rica. Na região do Vale do Sinos, onde se fixaram os primeiros alemães, havia grande quantidade de aves: marrecões, patos silvestres, garças, outras aves menores e os soberbos cisnes-de-pescoço-preto. Nos lagos e rios havia grande abundância de peixes: bagre, tainha, cabeçudo, cará, traíra, jundiá, pescadinha e até camarões.
Como foi a aculturação dos colonos alemães
Foi bastante rápida. Começou pela agricultura. O processo foi acelerado devido ao extremo isolamento que viveram. Nas comunidades do interior, com extensas florestas, eles lutaram sozinhos numa terra inóspita, sem a mínima infraestrutura. Tudo teve de ser feito. Sem estradas, o isolamento somente foi quebrado pelos rios, quando estes estavam próximos. Eles trouxeram consigo a cultura da pequena propriedade, pois não eram donos de terras de onde vinham, e sim trabalhadores. Tinham conhecimento do gado leiteiro, dos cereais, da carne, da banha, da batata-inglesa e da tração animal. Mas perceberam, de imediato, que aqui existiam alimentos nativos que ofereciam grande vantagem em relação aos que eles traziam da Europa.
As descobertas alimentares
Os alimentos nativos ofereciam grandes vantagens. Não sofriam o ataque de pragas semelhante ao que ocorreu com o trigo, o centeio e a cevada trazidos por eles. Eram também bem aceitos nas terras onde foram feitas as derrubadas florestais. A partir disso a mandioca, o milho, o arroz, o feijão preto, a cana de açúcar, a ervilha e a abóbora passaram rapidamente a fazer parte do conjunto de alimentos consumidos pelos colonos e também por seus animais. A batata inglesa demorou mais para conseguirem boas colheitas. As pragas a consumiam.
Conclusão
Com grande esforço conseguiram comida suficiente para as suas famílias e para trocar por produtos industrializados. Numa carta a um parente na Alemanha um colono fez o seguinte relato: ”...nossa comida diária consistia de milho socado a mão e abóboras cozidas. Nossas xícaras foram substituídas por porongos. As roupas eram feitas com fios de algodão e linho, tingidas com tintas extraídas dos cipós...A carne provinha da caça e da pesca”.