Os imigrantes alemães, a partir de 1824, e depois os descendentes em terceira, quarta e quinta gerações, fizeram uma verdadeira marcha pelo Brasil. Atravessando o Rio Uruguai, ocuparam o oeste catarinense, depois o oeste do Paraná e seguiram adiante. Nesses lugares, os olhos azuis e os cabelos loiros falando a língua alemã, lembram do Rio Grande do Sul com saudade, enquanto tomam o inseparável chimarrão.
Reminiscências
Após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Alemanha demorou em reorganizar sua vida institucional. Uma das trágicas consequências do conflito resultou na divisão do país: a parte ocidental livre e democrática e o Leste, um regime totalitário, girando em torno da órbita da União Soviética. A ideologia hitlerista teve muitos adeptos em vários países. No Brasil, agentes alemães procuraram expandir o nazismo, encontrando simpatizantes e alguns adeptos. Procurando debelar a propaganda hitlerista, Getúlio Vargas fez uso da chamada “Nacionalização”. Ela proibiu o uso da língua alemã, cultos em idioma alemão, reuniões nas sociedades, ensino do alemão nas escolas. Tudo deveria ser em Português. Foi muito difícil, pois muitos não a dominavam. Uma geração inteira perdeu suas raízes.
Cultura alemã
Hoje, até pela situação geral no mundo, com a queda de tradicionais barreiras, entre a maioria dos povos, há um sentimento de liberdade e fraternidade. No Rio Grande do Sul, a cultura alemã voltou a ocupar seu espaço: grupos de danças e bandinhas, com instrumentos de sopro, voltam a tocar velhas músicas alemãs. Essa língua é hoje uma necessidade em termos de ligações com a Europa. Filiais de matrizes alemãs contribuem para nossa economia.
Festas e tradições
A presença germânica no RS deixou a sua colaboração. Nas danças gaúchas há elemento alemão. Há grande número de palavras portuguesas germanizadas. O típico churrasco e o gostoso chimarrão são presença em qualquer casa alemã. Mas, os reflexos da Segunda Guerra Mundial e a vida moderna, cada vez mais trepidante, com a industrialização alteraram profundamente esses costumes.
O tradicional Kerb
Este era o maior acontecimento festivo da localidade, no ano. Era a época em que as moças ganhavam vestidos novos. Um ou dois eram elementos absolutamente indispensáveis. Parentes, amigos e conhecidos, residentes em vilas ou cidades vizinhas, ou mesmo no fundo de uma picada, vinham passar dois ou três dias na festa. A dança era o destaque especial. Arroz, massa, chucrute, carne de porco, carne de rês, galinhas recheadas, saladas diversas, doces e cerveja proporcionavam o prazer a milhares de pessoas.
Tiro do Rei
Acontecia num domingo e era cheio de emoções. Toda vila se reunia na Sociedade dos Atiradores, esta existe ainda hoje em várias localidades. Grupos de conversa, política municipal, jogos de cartas, bolão, negócios e uma reunião dançante enchiam o tempo, enquanto os atiradores disputavam e mostravam as suas qualidades.
Baile do Rei
Era o segundo melhor costume. Na Sociedade dos Atiradores acontecia uma competição de Caça e Tiro. O campeão do torneio recebia a Medalha de Ouro. Em casa, à tardinda, a esposa oferecia um tipo de “happy hour”. Depois, todos iam para o baile e o campeão entrava com o séquito dos que já haviam sido. Ele recebia a coroa do campeão do ano anterior. Boa música, boa comida e canto. As moças disputando os olhares. Muitos encontros marcaram casamentos. A família participava e as jovens eram guardadas pelos pais. Os pequenos da família também compareciam, mas em lugar separado e calmo com alguém que os vigiava.
Kränzchen
São grupos de seis a oito senhoras ou senhoritas que se reuniam semanalmente, em rodízio, sem formalidade, para o cultivo da amizade. Faziam trabalhos manuais e não faltava o café com cucas e doces. Esse costume continua nos dias atuais entre grupos de descendentes alemães, principalmente nas Igrejas.
Bolão
É conhecido em qualquer cidade de origem alemã. Hoje, é prática em todo o Estado. No interior, do fundo das picadas, os colonos vêm a cavalo, uma noite por semana, para a noitada do Bolão. Nas cidades, há muitas sociedades onde jogam dois grupos ao mesmo tempo. Os torneios são disputados com muito entusiasmo, terminando em geral, com cantos onde se destaca “EM PROSIT DER GEMÜTLICHKEIT”.
Festa da colheita
Por ocasião das colheitas, os colonos realizavam grandes festas, durante três dias, como se fosse um “Kerb”. Num grande salão era acolhida a vizinhança. A euforia começava com a busca de uma garrafa decorada, escondida em algum lugar. Só os mais argutos a encontravam. Ela era suspensa sob a principal luminária do salão e ali começava a festa com muita comida e dança. Estas eram a polka e a valsa, as mesmas da terra natal-Alemanha.
Conclusão
As tradições mais caras estão ligadas à vida religiosa. Sempre, a Árvore de Natal e o Ninho de Páscoa são os elementos que jamais serão olvidados. Na minha infância e ainda hoje, é tradição colocar algodão nos ramos do Pinheiro de Natal. Os flocos brancos simbolizam a neve que ficou na terra de origem. Velas ou luzes lembram as longas noites frias e escuras que ficaram no passado.