Esses dias durante os rabbitholes de pesquisas que me envolvo devido a minha curiosidade crônica encarei um documentário sobre a deepweb, aquela parte da internet que não aparece nos sites de pesquisa e cujos sites são mais obscuros, envolvendo desde tráfico de drogas até assassinos de aluguel. Neste documentário abordam os vídeos snuff conteúdo que consiste em pessoas sendo mortas ou torturadas. O agente do FBI responsável pela investigação deste conteúdo relata um vídeo que nos perturba e enoja na primeira vista, também nos dessensibiliza, ao ponto que e após dois ou três destes filmes não sentirmos mais nada ao ver a barbárie. E pior, este pode se tornar um entretenimento viciante.
Dentro deste tema lembrei do seriado ´Dahmer: Um Canibal Americano´ lançado pela Netflix com excelente produção, fotografia, sound design e atuação. Entretanto abordando um assassino em série cujos crimes ocorreram entre 1978 e 1991, ou seja, os familiares das vítimas e os sobreviventes ainda estão vivos e lidando com o trauma que sofreram. Muitos sendo procurados para opinar sobre o tema e tendo que reviver todas as dores que estavam ficando no passado.
Ver Dahmer ser visto como um homem atraente (mesmo que na sua versão de Evan Peters), virar meme e assunto banal nas redes sociais feriu quem sofreu em suas mãos. Já o público que o temia, sem sofrer diretamente com seus atos, estava apático e acompanhou como qualquer serie de ficção, sem se importar no horror real que inspirou as câmeras a ligarem. Famílias viram a reencenação do assassinato dos seus filhos, irmãos e amigos. Poucos pararam para refletir sobre o círculo de horrores que se formava.
Agora a Netflix novamente lança um documentário sobre uma tragédia fresca em nossas memórias com o seriado ´Todo Dia a Mesma Noite´. Agora sobre o incêndio na boate Kiss com vítimas de todo o estado incluindo erexinenses, e as famílias podem ver seus momentos de desespero, a morte de seus filhos, irmãos, amigos e namorados tudo reencenado.
Ainda não me senti confortável com a ideia de acompanhar esta obra, mas li os comentários de quem dedicou seu tempo para rever a calamidade que nos assolou direta ou indiretamente. O consenso foi que bate muito perto de casa, há uma agonia muito maior. Estes que acompanhei são pouco relacionados com as vítimas, posso apenas imaginar como foi para as famílias.
Isso abre um questionamento, ao menos para mim: Até onde devemos relembrar o passado para que ele não se repita ou é só crueldade com quem está tentando seguir sua vida? Até quando o entretenimento mórbido nos faz cuidarmos melhor da vida ou nos insensibiliza quanto ao sofrimento alheio? Na Idade Média as famílias levavam as crianças assistir as bruxas queimarem em praça pública, era todo um evento importante, não se questionava a barbárie de todo o conceito. Não acho que voltaremos a tanto, mas iremos nós nos entreter com crimes quão recentes?
A Boate Kiss completa apenas uma década, quando será cedo demais? Existe isso? Na deepweb como comentei já existem vídeos de mortes reais, e não são tão poucas pessoas que assistem. No ritmo que estamos não sei se isso continuará como algo de nicho obscuro, ou se tornará parte da cultura pop? Ninguém sabe. E quais as consequências disso em nossa psique? Outro mistério.