Sou historiógrafa, também. Foi o que respondi ao ser interrogada, certa ocasião, por uma “conhecida”. Grande coisa, respondeu-me ela. Continuou a questionar-me o que de valor pecuniário eu havia amealhado ao final de uma vida de estudos, pesquisas, escritos e mais escritos que acabavam servindo apenas para embrulhar bananas!
A rudeza dessas afirmações feriu-me enormemente.
No entanto, após passadas algumas horas e já secas as lágrimas, pus-me a avaliar o que me fora dito. Diante de mim, de olhos abertos, desfilaram milhares, milhões de momentos em que passei estudando, lendo, buscando aprender, crescer em riqueza intelectual, uma vez que era eu, muito humilde financeiramente. Realizei duas faculdades feitas na Universidade de Passo Fundo (UPF), em que muitas vezes só possuía o valor da passagem e não para um lanche. No segundo curso lecionava em Gaurama, de onde voltava ao meio dia e chegava na antiga rodoviária, onde, sem almoço, viajava a Passo Fundo, para aulas durante toda a tarde. Retornava às 18h para Erechim, e em chegando, corria a pé, três noites por semana para lecionar no Mantovani. Sempre tudo a pé. Carro era um sonho muito distante.
Veio-me a lembrança também, momentos piores ainda quando levantava-me às 5h para acender o fogão a lenha para aquecer água do café. Morando em Três Vendas ia ligeirinho até a rodoviária (a pé, lógico!) para de ônibus ir até uma escolinha municipal que distava uns 15 km de Erechim. Chegava às 6h30. Ficava parada esperando até às 8h quando o diretor abria a escola que possuía uma única sala. Dezenas de vezes, a chaleira não fervera, pois, a lenha estava molhada, e eu lecionava sem café.
Algumas vezes chovia e o ônibus não passava na estrada de chão, obrigando-me a caminhar até casa em Três Vendas pelo menos uns 17 km, onde chegava exaurida, mas com muito desejo de ser a melhor professora daqueles pequeninos.
Os momentos de pânico e medo passados naquela estrada sem uma moradia sequer, faria hoje, qualquer um desistir. Mas havia fibra!! Milhares de cursos, seminários, congressos, preenchiam meu viver sedento do que havia para aprender e conhecer.
O Mestrado em História Iberoamericana foi minha grande paixão com pesquisas em 19 departamentos da República Oriental do Uruguai onde fiz grandes e queridos amigos que o são até hoje. Busquei informes em dezenas de livrarias de Buenos Aires, inúmeros arquivos históricos do Rio Grande do Sul. Igualmente no fabuloso arquivo histórico do Itamaraty, no Rio de Janeiro, onde utilizei documentos inéditos da história gaúcha o que me granjeou elogios e pedido de publicação do meu trabalho. A URI o publicou.
Das minhas pesquisas publicadas, uma me levou ao 50º Congresso de Americanistas em Varsóvia, Polônia, onde apresentei meu trabalho sobre os poloneses de Erechim. O fiz em língua espanhola. Outra consequência das pesquisas e publicação do livro “A Saga de Famílias Polonesas na colonização de Erechim” foi a emocionante ida a Krakovia, após finalizado o Congresso em Varsóvia e acrescido das visitas aos Campos de Concentração de Bierkenau e Auschewitz. Outro curso apaixonante foi o de Arqueologia, oferecido pela URI Erechim em que os renomados e famosos professores, Drs. arqueólogos trazidos pela Universidade colocaram em cena a fantástica ancestralidade humana. Orientada e incentivada por essa plêiade de gênios da antropologia e da arqueologia, pesquisei e a URI publicou “O Castelinho e a Casa Primeira Escola”, na linha da arqueologia histórica.
Faminta por novos horizontes do saber, inscrevi-me em um concurso estadual de historiografia, que proporciona saber e instrumentos para entender documentos históricos. De todos os candidatos inscritos no Rio Grande do Sul fiquei em 3º lugar e minha aprovação foi publicada no Diário Oficial de 25 de maio de 1992.
Sou historiógrafa concursada e aprovada! Posso afirmar isso com orgulho. Mas diante da realidade que se apresenta a nós, do que adianta saber, entender, criticar, analisar ser excelente. Valeu a pena sentir-me realizada como educadora e incentivadora da ética e de valores dignos?
Hoje, chego a conclusão que a pessoa que me questionou, tem razão: Saber isso, aquilo, ser isso ou aquilo, SER HISTORIÓGRAFA, GRANDE COISA!!!