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Opinião

Memórias de Viagem: Alemanha-Terra de Origens- Imigrantes Alemães no RS (Parte IX)

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Por Marlei Klein
Foto Divulgação

Cada povo deixa algo na história, seja na cozinha, na casa, no modo de vida, no afinco ao trabalho e em outros aspectos. Alguém já disse que o ideal seria juntar “a casa alemã, a cozinha italiana e a vida brasileira”. Os velhos romanos já diziam: “De gustibus non disputandum est”= gosto não se discute.

Reminiscências

Os alemães têm caráter muito associativo, isto é, gostam e até precisam viver em grupos. A intensa vida em família e os encontros nos locais de lazer, geralmente nas igrejas, fizeram surgir grupos de música, de teatro e de canto. Disso, a importante contribuição alemã à vida associativa no Rio Grande do Sul. Isolados nas suas colônias, sua vida só podia ser igual à que levavam em sua terra de origem. A língua alemã era a sua língua, mas aprenderam o português e acabaram por germanizar muitas palavras.

Natal dos Imigrantes

O NATAL comemorado, nas colônias alemãs, ficou muito diferente daquele da Alemanha. Neste país é uma época de muito frio, geralmente com neve. Roupas pesadas, Feiras de Natal de muita alegria e o aconchego da lareira ou do fogão. Aqui, muito calor. O brasileiro, apesar do clima, procura imitar o Natal europeu. Luzes, neve artificial, músicas, grupos corais, o Papai Noel- americano- com roupa vermelha. Aqui, os imigrantes procuraram adaptar as comemorações.

O Menino Jesus

A figura principal do Natal é o MENINO JESUS – o “KIRCKINNCHE”- e não o PAPAI NOEL. Na noite de Natal, nas pequenas comunidades e paróquias, criam o Menino Jesus em pessoa. Ele vai de casa em casa, vestido de branco, com o rosto coberto por um véu. Vem acompanhado por dois jovens vestidos de preto e chapéu. Caras pretas escondidas atrás de uma barba de barbante e portando varas. Em cada casa, eles fazem muito barulho batendo e tocando sininhos de Natal. São os que entregam os presentes para as crianças, que se comportaram. Para as que não foram boas, o “Krampus”, uma figura de monstro, adverte e entrega pedaços de carvão. O grupo do Menino Jesus é ansiosamente esperado e recebe dinheiro e cuca. Estas figuras apareciam nos tempos dos primeiros imigrantes, adaptadas às tradições alemãs

Tradições que ficaram

Quando o céu cintila ao anoitecer, em dezembro, dizem que o Menino Jesus- o Khristkinnche- está assando bolachas de Natal- as “zuckerblätzjer”. Como Ele não pode fazer tudo sozinho, todos precisam ajudar, principalmente as crianças. Assim, a cozinha se transforma numa padaria e o perfume de Natal invade toda a casa. Naturalmente, é permitido beliscar um pouco os doces. Mas rapidamente as bolachas somem e são guardadas em recipientes de vidro, em local seguro, onde ficam até o Natal. O Menino Jesus deixa, sem ser observado, uma bolacha no parapeito da janela e leva um bilhetinho contendo os pedidos das crianças. Na véspera do Natal, Ele traz os presentes e enfeita, com a ajuda dos pais, tudo bem escondido, a Árvore de Natal.

As crianças e o Natal

Elas quase morrem de curiosidade e impaciência. O mesmo acontecia na nossa infância. Lindas lembranças de bons tempos. As crianças não conseguem esperar a hora dos presentes. Quando os sininhos tocam chamando para a distribuição dos presentes, elas correm para a sala. Mas uma decepção! O invisível Menino Jesus já havia desaparecido. No dia 6 de dezembro é comemorado o Dia de São Nicolau. Ele, um santo, que usava botas e roupa vermelha. Ele foi o prenúncio do atual Papai Noel. Para essa data, as crianças colocam seus sapatos, bem limpos, defronte da porta da casa, pois o bom homem espreita, secretamente, se as crianças estão se comportando. Os pequenos vão cedo para a cama. De manhã, encontram guloseimas em seus sapatos como recompensa. A família se reúne para limpar os sapatos- é tradição em toda a Europa.

As cucas de natal

As tradicionais cucas de mel começam a ser feitas no fim de novembro. Dias antes do Dia de São Nicolau. Em nenhum sapato, no dia do santo, falta cuca de mel, que possuem formato de coração ou de estrela e lindamente confeitadas. A CUCA DE NATAL- LEBKUCHEN- leva ingredientes tradicionais como: farinha de trigo, manteiga, mel, ovos, açúcar, fermento, especiarias, pitada de pimenta. O segredo está em deixar a massa descansando por dois dias. Depois, abrir com rolo, recortar figuras e assar. São decoradas com glacê e amêndoas. Depois, de esfriar completamente são guardadas em vidros bem fechados.

Conclusão

Como a época do Natal é muito fria, na Europa, não é feita a Ceia de Natal. À noite, participam da Missa do Galo, uma Missa festiva de Natal. Hoje, ainda é realizada. Nela as pessoas se encontram, principalmente em lugares menores, para se cumprimentar. Em família, é tradicional o Almoço de Natal. Todos em volta da mesa com um cardápio especial. Antes da refeição, é feita uma prece pela pessoa mais idosa e todos ficam de mãos dadas. O tradicional peru- modelo americano- é substituído, na Alemanha, pelo ganso, às vezes, até o selvagem.

Uma bela tradição que está chegando ao Brasil é o Calendário de Natal. É um painel, de diferentes materiais, com 24 janelinhas- do dia primeiro de dezembro ao dia 24. Todos os dias, abrem uma e ela contém uma surpresa ou atividade para o dia. Lembro do encanto do meu neto em levantar cedo para abrir a janelinha do dia correspondente. A ternura e a magia do Natal sempre existirão: luzes, perfume do cravo, da canela, do cardamomo e a Árvore de Natal! FROHE WEIHNACHTEN! FROHES NEUES JAHR!- 2023!

 

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