Há anos, quem passa em frente ao Castelinho, observa a história literalmente caindo aos pedaços. Quando alguma medida vai ser providenciada para salvar o prédio que permitiu o crescimento de Erechim?
Agora, parece que o sonho de milhares de erechinenses estão sendo atendidos, visto que um novo projeto de restauração está sendo desenvolvido pelos órgãos municipais competentes, sendo que já foi apresentado o plano para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE) em agosto deste ano.
Desde de 2020 está sendo desenvolvido um projeto em parceria com o Departamento de Cultura e Esporte juntamente com o Serviço de Patrimônio Histórico e Cultural que visa devolver o Castelinho novamente para a comunidade com um plano de ocupação cultural.
A proposta que está sendo desenvolvida pela equipe técnica tem como objetivo modernizar as instalações, melhorar a acessibilidade universal e fazer uma reabertura com diversos usos culturais para aumentar o fluxo turístico do prédio.
Segundo a secretaria de Cultura e Esporte, Carla Talgatti, o plano propõe não apenas uma restauração, mas uma ocupação consciente com objetivo de resgatar a memória histórica do prédio que marcou a colonização do município. Com um projeto amplo e complexo, a ideia é criar um prédio com uma ocupação, para que as pessoas possam visitar o Castelinho e também encontrar espaço para desfrutar das atividades culturais.
O foco do projeto
Um dos focos do projeto de revitalização é melhorar a acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida, incluindo um elevador panorâmico na lateral do prédio e rampas que não dependem de equipamentos ligados à luz elétrica para funcionar. Segundo a arquiteta e urbanista, Ariane Pedrotti, um dos maiores desafios para concretizar essa ideia, é a falta de ligação vertical entre os cincos pavimentos e as inúmeras escadas que compõem a estrutura do patrimônio histórico.
Outro fator determinante que contribui para a falta de acesso na obra histórica, é o desnível de terra, principalmente, na parte posterior do Castelinho, que possui muitos espaços não acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida ou cadeirantes. Dessa forma, a equipe responsável pela restauração está criando um projeto de movimentação de terras que possa solucionar essas complicações e permitir aos indivíduos que apresentam limitação possam se deslocar livremente no local, explica Pedrotti.
Inserção da tecnologia
Para chamar atenção da população infanto-juvenil sobre o Castelinho, o projeto possui a finalidade de inserir aparelhos eletrônicos de modo a auxiliar os visitantes a descobrirem curiosidades e a importância do prédio para o município. Conforme Ariane: “Está vindo uma nova geração que não é mais analógica, então nós precisamos pensar em espaços e equipamentos digitais”. Destaca-se que, essa parte contempla a última fase da futura restauração prevista, em função do alto investimento dos eletrônicos que precisam ser tratadas com empresas que trabalham com tecnologias de museus.
História, cultura e turismo
Conforme o prefeito de Erechim, Paulo Alfredo Polis, uma das ideias para a utilização do Castelinho após a almejada revitalização do prédio, é servir como parte turística para as pessoas que não possuem conhecimento e desejam saber mais sobre a antiga sede da Comissão de Terras. Na sequência acrescenta que na obra histórica vai ser disponibilizado informações referentes à história e cultura do município de Erechim, a formação de miscigenação das várias etnias que passaram na Inspetoria de Terras e porque é importante preservar o patrimônio histórico.
A secretária do órgão municipal, Carla Talgatti, acrescenta que o espaço vai ser utilizado para exposições temporárias e permanentes, com salas de multiuso para desenvolver oficinas e atividades que a comunidade achar necessário. Além disso, colocar um café dentro do Castelinho, com a ideia de transformar o local de comodidade e um espaço verde na parte posterior da obra para devolver a comunidade.
Talgatti destaca que a equipe técnica está trabalhando juntamente com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado visando a captação de recursos e fazendo as adequações legais da legislação para a aprovação do projeto. Além disso, explica que o trabalho de revitalização e ocupação do Castelinho, foi aprovado na primeira etapa do edital para projeto de restauração, precisando passar por mais duas análises de comissões de avaliação, sendo que o resultado deve ser divulgado em breve.
O edital de revitalização
Tido como uma referência simbólica para a Capital da Amizade, caso ganhe o edital de revitalização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado inscrito, será repassado uma bolsa com valor de R$ 1 milhão à proposta contemplada. Além disso, a prefeitura municipal erechinense também vai disponibilizar e investir a metade do valor total do edital, para executar a primeira etapa da restauração do Castelinho, como contrapartida.
Segundo Carla, para as próximas etapas de revitalização, estão sendo buscados recursos próprios da prefeitura, editais de restauração, parcerias públicas e privadas para ganhar tempo e deixar o prédio histórico pronto para devolver à comunidade. “Esse recurso vai ser liberado ainda esse ano. Assim que for liberado o dinheiro do edital, encaminhamos o processo licitatório e já podemos começar a fazer a obra. A expectativa é que, no início do ano que vem, após o prazo da licitação, inicie a obra e o processo de revitalização do Castelinho”, projeta a secretária sobre o edital do Estado.
Por que parou a obra?
Uma das razões que levaram à estagnação da obra, em 2014, aconteceu em virtude de não haver um plano de ocupação cultural após a conclusão do processo de restauração do Castelinho. Diferente do projeto anterior, o planejamento de uso cultural foi a primeira etapa da discussão entre os integrantes responsáveis pelo plano atual, antes mesmo de analisar o que era preciso ser realizado na manutenção do prédio que se encontra em péssimas condições.
Afinal, quais são as demandas culturais coletivas para o município de Erechim? Essa dúvida foi um dos pontos abordados pela equipe técnica no planejamento. Primeiramente, é preciso um significado para o termo genérico e com amplo significado para a comunidade.
Após uma minuciosa pesquisa, a equipe técnica estabelece uma utilização de finalidade cultural que não exija grandes mudanças estruturais na obra. Em seguida, a proposta de cunho cultural é apresentada ao IPHAE e esta irá explicar como fazer o uso no futuro, explica Pedrotti.
Uma das novas iniciativas que estão sendo analisadas pela equipe técnica é transformar o Castelinho em um lugar autossustentável.
A ideia possui o propósito de fazer planejamento anual do que precisa ser realizado no Castelinho, o tempo que é necessário e os recursos, tão essencial para a conservação preventiva que está sendo estudado para fazer dentro do que a lei permite e determina.
O plano é criar uma fonte de recursos próprios para o Castelinho, quando for aberto para comunidade, através da cobrança de ingressos para algumas atividades que vierem acontecer nele, por meio do Estado ou do município, parcerias públicas e privadas, entre outros.
A arquiteta reforça que um bem tombado como alto valor de investimento de revitalização, precisa se auto sustentar e não depender de elevados investimentos de manutenção. “Se eu preciso de R$ 50 mil por mês para cuidar da calha, trocar uma madeira ou precisar de um marceneiro para fazer pequenas manutenções, não vai ser necessário investimentos de milhões lá na frente”, conclui.
Decoração natalina custou alto para o Castelinho
Por muitos anos, o Castelinho, virou uma atração turística, não pela sua história, mas por abrigar a Casa do Papai Noel e pelos inúmeros enfeites pendurados no prédio em madeira, na época mais mágica do ano. Porém, o espetáculo natalino, que está presente em álbuns familiares e traz incríveis lembranças das recordações daquela época, custou alto para o Castelinho.
Na última intervenção (2013-2014) realizada na antiga sede da Comissão de Terras foram retiradas muitas luzes, fios e refletores que não estavam mais funcionando e os pregos utilizados para prender os fios natalinos causaram danos de oxidação na construção em madeira.
Seu restauro divide opiniões, infelizmente
A falta de intervenção no Castelinho gera revolta em parte da população, que defende a sua preservação. Mas nem todas as pessoas compartilham a ideia de salvar o maior símbolo do município de Erechim das ruínas, infelizmente.
De acordo com a historiadora Sônia Cima, isso se deve, pois, as pessoas que acreditam no resgate do Castelinho, dividem algum tipo de afetividade através dos vários períodos de história que ficou aberto ao público, encantou várias gerações.
Para o prefeito, Paulo Polis, o Castelinho representa para a comunidade um fator emocional forte das famílias e o imaginário das pessoas. Lembra que se observar em qualquer espaço do município erechinense, a desenho do Castelinho está presente, como na bandeira e no pórtico.
Parte da história
O Castelinho faz parte da história de Erechim. Permitiu o desenvolvimento da cidade e a vinda de várias famílias, que vieram em busca de uma vida melhor.
As palavras da ativista cultural, Vanda Groch, resumem bem, o que se espera da população: “Se cada erechinense fizer – ainda mais - a sua parte na área privada e nos espaços públicos, a identidade da Capital da Amizade estará garantida, esta que nasceu no Prédio da Comissão de Terras – o nosso Castelinho! Ele representa o passado, o presente e o nosso futuro”.
Por Bruna Rebonatto (Estagiária de Jornalismo UPF)
Supervisão de Rodrigo Finardi, Coordenador Geral de Jornalismo (TV e Jornal Bom Dia)