O calendário marca o dia da chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Rio Grande do Sul: 25 de Julho de 1824. Organiza-se o primeiro núcleo colonial europeu na Província. Mal se poderia imaginar o milagre que viria acontecer. A conduta dos imigrantes é a de ordem, do trabalho e do respeito. Aos poucos conquistam todos os setores de vida pública e social.
Reminiscências
Os imigrantes alemães chegaram buscando uma vida melhor, mais prosperidade. Depois de longa e cansativa viagem chegaram e foram recebidos pelo feitor José Thomaz de Lima que os acolhe em nome do Governo Imperial e os aloja nas dependências da Real Feitoria do Linho- Cânhamo. Esta pequena primeira leva de imigrantes alemães não só aumentaria as áreas agricultáveis do trabalho que os portugueses realizavam, mas deram início ao trabalho artesanal, com as instalações de numerosas oficinas e fábricas para o aproveitamento da matéria prima regional.
Real Feitoria Do Linho-Cânhamo
Feitoria era um estabelecimento do Governo. Linho-Cânhamo é uma planta herbácea de pequeno porte, da qual são extraídas fibras utilizadas na confecção de cordas e de velas para barcos. Foi instalada em 1788, à margem esquerda do Rio dos Sinos. Constava de uma casa –grande, de pedra, centro das atividades e moradia do feitor. Nas senzalas moravam os escravos. Havia ainda galpões para animais e para depósitos. Mas, por ser movida a braço escravo, a feitoria não deu o resultado esperado e foi desativada. O Presidente da Província recebeu comunicação da Corte, dizendo que em terras da Feitoria seria iniciada uma colônia com imigrantes alemães.
Chegada dos imigrantes
É fácil imaginar o quadro na Feitoria com a chegada dos alemães. Tudo fechado e abandonado. Dia 25 de Julho foi um dia muito frio, de inverno, com cerração e umidade. As 39 pessoas, cansadas da longa viagem, olharam ao redor e encheram os olhos de lágrimas. O que os esperava? Tudo por fazer. Do nada tentavam ter esperança, mas foram os corajosos fundadores da pujante cidade de hoje: São Leopoldo, que ali iniciou. A Feitoria recebeu o nome oficial de “Colônia Alemã de São Leopoldo” numa homenagem ao santo padroeiro da Imperatriz Leopoldina. Foi o primeiro e mais importante núcleo de colonização do Brasil.
Colonos alemães
A vinda deles mudou o visual do Rio Grande. O ritmo puramente pastoril da Província foi quebrado pelo aumento das lavouras, pelo ruído das oficinas, pelo alarido das escolas e pela abertura de novos caminhos para o escoamento da produção. Sua estrutura política, econômica e social ajudou a dar impulso e relevância à imagem da nova pátria.
A economia
A produção agrícola, em poucos anos, floresceu a ponto de a colônia abastecer a capital, Porto Alegre. Além de agricultores os alemães eram “Handwerkers”- artesãos. Trabalhavam a madeira, o ferro, o couro e as fibras. Com seu trabalho, os artesãos formaram as bases da industrialização no Rio Grande e aconteceu uma grande concentração industrial no Vale do Sinos. Muitas grandes fábricas espalhadas pelas cidades de origem alemã começaram com artesanato, em pequenas casinhas de porta e janela, onde tudo era feito à mão.
Muitos sobrenomes alemães estão ligados ao tipo de trabalho exercido. Assim: SCHMIDT é ferreiro – SCHUSTER e também SCHUMACHER é sapateiro – WEBER é tecelão – ZIMMERMANN é carpinteiro – SCHREINTER é marceneiro – SCHNEIDER é alfaiate – WAGNER é construtor de carroças – MÜLLER é moleiro. Tudo era artesanal, onde o próprio colono constrói sua moradia e seus móveis.
Conclusão
Na vida rotineira e pacífica, os agricultores germânicos transmitem hábitos, costumes e seu folclore aos brasileiros, na ruidosa alegria dos “Kerbs” e das festas religiosas. De outra parte recebem, assimilando com verdadeiro interesse e prazer hábitos, costumes e o folclore dos nativos. Aprendem a tomar chimarrão, que chamam de mate amargo, que nunca mais abandonariam. Comem o churrasco e montam fogosos cavalos.
Em pouco tempo, suplantam o próprio gaúcho no carinho, nos cuidados com que tratariam e encilhariam o cavalo das estrebarias. Eram mais caprichosos, mais responsáveis e mais entusiastas. Demoram a manejar o idioma da terra adotiva. Os mestres de seus filhos são tirados das comunidades evangélicas e católicas. São pastores e padres recém-chegados da Europa. Em contrapartida, os brasileiros, que com eles convivem, aprendem o alemão. Falam e cantam nos domingos de folga. A língua de Goethe, aos poucos, é deturpada pela influência nativa. Uma mistura pitoresca de vocábulos e expressões das duas pátrias. Foi uma aculturação natural e necessária, cujos benefícios avultam até nossos dias.