Inicio esta crônica agradecendo à professora e colega de Doutorado Sônia Cima pela sugestão de abordar a figura do Cabo Cezário de Oliveira Matos e ao professor e pesquisador Enori Chiaparini que declamou “O Aldo Affonso de Castro escreveu a seguinte assertiva: politicamente falando não existe nenhuma liderança que possa superar as virtudes políticas do cabo Cezário de Oliveira Matos”. Na figura dele, abordaremos questões de segurança pública em Paiol Grande até meados de 1922, ano em que ele foi embora do município.
No período mencionado, temos um cenário complexo devido as lutas pela ocupação da terra. A falência de um modelo baseado no sistema escravagista ainda impactava as relações de trabalho. Soma-se a isto, o fato de que a região não apresentava até 1908 qualquer tipo de controle sobre o povoamento. A terra era ocupada por povos originários (indígenas) e por negros e caboclos (normalmente silenciados pela narrativa oficial), que aproveitavam os vastos ervais e a proximidade com a divisa com Santa Catarina para estabelecerem-se nas terras.
Um dos poucos historiadores da “primeira geração” que aborda essa perspectiva é Cassol (1993, p.88), que descreve: A população destes sertões do Velho Erechim, além dos índios, constava de caboclos e muitos desertores e fugitivos da polícia e das revoluções de 1835 e, sobretudo de 1893, pela construção da ferrovia, aqui concluída em 1910 e até por correntinos que aqui periodicamente vinham extrair erva mate. Surpreende também o registro de vários poloneses na região de Gaurama no início deste século, antes da colonização oficial. (CASSOL, 1993, p. 88).
Assim, além da terra ser inóspita para a maioria dos (i)migrantes a disputa pela terra cria um clima de incertezas e beligerante em essência. É neste cenário que a Colônia ganha seu primeiro bastião de segurança pública o Cabo Cezário de Oliveira Matos. Sua chegada é cercada por um ar pitoresco. Na obra 100 razões para viver sem medo de morrer, de autoria de João Francisco Campello Dill, da qual é uma das figuras rememoradas, encontramos a seguinte passagem: “Eis que certo dia, montando um cavalo branco, chapéu aba larga cobrindo-lhe os olhos, capa pesada e negra, aquele forasteiro chega a cidade (p.259).
Dirigiu-se pela Avenida Sete de Setembro até a Intendência Municipal sob o olhar curioso da população, “[...] quando a poeira baixou, virou-se para o povo. Com as mãos, afastou a pesada capa, deixando ver uma longa espada de um lado e um revólver do outro” (p. 254). A sua figura controversa, construiu reputação na Colônia a partir de 1911. Seus métodos não eram sutis: “a espada e o revolver eram seus argumentos principais” (DILL, 2019, p.261).
Era a única autoridade policial instituída, com uma metodologia de trabalho que perpassava por mandar os meliantes a realizarem trabalhos braçais como arrancar tocos, como não existia cadeia pública na época, os detidos eram levados para uma “casinha no meio do mato. [...] Lá ficavam amarrados por um certo tempo, até repensarem sua conduta” (DILL, 2019, p.261).
Sua figura é representativa ao ponto de ter ocupado interinamente a Intendência Municipal. Em 1922 veio a falecer na cidade de Passo Fundo. Hoje dá nome à uma rua na cidade de Erechim. Truculências a parte, sua figura foi responsável pelo apaziguamento da região. Seus métodos nada ortodoxos para a atualidade funcionaram, seu prestígio foi construído por dois sentimentos principais: medo e respeito.
Referências
Cassol, E. As várias fases e os vários modelos de ocupação humana na região do ex-grande Erechim. Perspectiva, Erechim, ano 17, n. 60, dez. 1993
DILL, J. F. C., 100 razões para viver sem medo de morrer, Erechim, 2019.