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Opinião

Democracia e os jogos políticos

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Henrique Trizoto
Por Henrique Trizoto
Foto Divulgação

Na coluna de 20, 21 e 22 de março de 2021 intitulada A Revolução de 1930 em Erechim: a conciliação dos "inconciliáveis", apresentei algo inusitado para o período: Em Boa Vista, o que vemos no período é algo inédito, a conciliação entre chimangos e maragatos em prol da candidatura de Vargas, os primeiros fundando centros cívicos e os segundos organizando comitês de propaganda, o que incluíam caravanas de jovens e senhoras para disseminar a candidatura em outros municípios inclusive em Santa Catarina.

O maior exemplo desta conciliação entre os “inconciliáveis” é o comício realizado em frente à Praça Júlio de Castilhos onde no palanque encontravam-se Frederico Cúrio de Carvalho advogado e chimango, e o médico e maragato Catarino Azambuja. O sucesso foi tanto que Getúlio Vargas (presidente) e João Pessoa (vice) receberam respectivamente 6.371 e 6.373 votos. No restante do estado Vargas recebeu 287.321 votos enquanto Júlio Prestes recebeu 789 votos”.

Ideologias distintas unidas em prol de um objetivo, familiar, não é mesmo? Periodicamente nos deparamos com situações que exigem atitudes viscerais. Um claro contraste ao que temos originalmente no Estado do Rio Grande do Sul desde os idos da Revolução Farroupilha, em que os lenços brancos e vermelhos se digladiavam pelo controle político da Província. Os lenços eram as bandeiras que vemos atualmente.

A ruptura da política do café com leite e a inserção de novos atores políticos foi traumática. E seus efeitos desencadearam vários desdobramentos que acarretaram no cenário atual. Pouco se fala no nosso estado, mas em 1932 tivemos a Revolução Constitucionalista onde as forças majoritariamente paulistas se insurgiram contra o governo Vargas. Na sequência temos o Estado Novo (1939-1945), o movimento da Legalidade em 1961, o golpe civil militar de 1964, o movimento Diretas Já (1983-1984), a Assembleia Constituinte (1988), Impeachment de Fernando Collor (1992) e Impeachment de Dilma Rousseff (2016). Todos, movimentos articulados e com cunho ideológico. 

Processos que consolidaram a construção dos programas partidários eleitorais. Eles, “abordam uma ampla gama de tópicos que refletem a agenda prioritária de um governo para um período específico. Também, na maioria dos casos, o programa eleitoral é ratificado por uma convenção partidária, legitimando-o como programa partidário e direção a ser seguida em conjunto. Por fim, os programas partidários eleitorais são emitidos a cada ciclo eleitoral, permitindo a observação de mudanças em posições partidárias através do tempo. Por isso, mesmo que os programas partidários não sejam profusamente lidos e estudados pelos eleitores na consideração de seu voto, estão presentes e suas propostas elegem prioridades políticas e de alocação de recursos, servindo como condutoras das campanhas eleitorais pelos candidatos e pela mídia” (VOLKENS et al., 2013, p. 53-4).

Programas claramente definidos como “projeto de nação”. Todavia, desde 2014 este cenário recebeu significativa alteração. Vota-se em figuras, os projetos ficaram em segundo plano. Vota-se em determinado candidato por não querer que o rival ganhe. O jogo de interesses assumiu o protagonismo dos processos eleitorais. Centro, Direita e Esquerda se tornaram um guarda-chuva amplo para abrigar esses interesses. Aliás, a esquizofrenia da política brasileira lembra muito a distopia 1984 de George Orwell. O amigo de ontem é o inimigo de hoje e vice e versa.    

Referências:

VOLKENS, Andrea et al Mapping policy preferences from texts: statistical solutions for manifesto analysts. Oxford: Oxford University Press , 2013.

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