Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Médico, Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.
Em encontro recente, o Sapateiro de Bruxelas, que anda um tanto desaparecido das rodas de cafezinho, nos fala de sua intimidade caseira, mais especificamente de momentos de folga no lar. O artesão, inarredável e convicto sentimental, se apega profunda e definitivamente a pessoas, animais e objetos de seu entorno. Guarda radinhos antigos, filmes em DVD, discos de vinil e CDs, além de outras curiosas quinquilharias. Coleciona lápis, cortadores de unha, canetas e relógios velhos. Acreditamos que seja um tanto compulsivo, o velho.
Em conversa informal, desta vez, nos fala especialmente de sua estimada poltrona de couro tipo chesterfield, que segundo o belga, é um móvel indispensável e de máxima utilidade, especialmente quando deseja tirar um tempo para descansar e ponderar sobre o que -de fato- anda acontecendo por aí.
É importante salientar que as práticas de exercícios monásticos se tornaram vitais ao artífice no pós-Covid 19. Mais ainda no decorrer da atual contenda eleitoral, que tem lhe provocado irritações, náuseas, pruridos e eventualmente cólicas intestinais e até vômitos.
Comenta o sábio, que nessas noites de inverno, longe das aglomerações e ao diz-que-diz incessante, e principalmente alheio aos noticiários falaciosos que envolvem e endeusam candidatos reconhecidos planetariamente por serem mentirosos e outras coisas, prefere manter-se solitário em seus momentos de recomposição moral e espiritual.
Assim, em íntima e elevada dispersão, o mestre estende o corpo fatigado e medita, tendo como única ocupação física atiçar as chamas da lareira. Distraído, recorda que o fogo, elemento purificador, sempre procura o alto e simboliza a alma e o amor. Amor, que segundo Camões “É fogo que queima e não se vê”.
Conta o artífice, que a partir da aconchegante cadeira - invariavelmente acompanhado por algum livro antigo - faz viagens vertiginosas. Segue pistas impensáveis, compõe ideias, divaga alheado, até embaralhar os fatos e as narrativas do dia com a leitura que brota pródiga das páginas esclarecedoras.
Seus devaneios descrevem círculos, parábolas ou elipses entre gostos e sentimentos cultivados no tempo. Qual cão farejador, sua mente move-se para lá e para cá, a perseguir a presa inconstante sem caminho definido. Realidade e ficção se misturam em rastros imprecisos. Cada conceito, depois de ziguezaguear, é absorvido para posteriormente ser ordenado em forma geométrica, retilínea, e retornar ao mundo real associado a objetivos e resultados práticos.
O conjunto lareira, livros e estofado contribui para aplacar o tédio da objetividade líquida pós-moderna; gostos simples e imensos que contentam e abrandam a árdua faina da vida.
No móvel delicioso ele esquece os aborrecimentos e conclui que a existência de cada um não passa de uma mistura impressionante de situações terríveis passadas - como a vivida há pouco com a Pandemia -, situações atuais - como a vilania da campanha política -, e outras situações deliciosas, quais as doces tardes de domingo junto a família e amigos.
É dali, de sua surrada poltrona, que os prazeres fantásticos do imaginário dão asas e fôlego a sua sempre renovada esperança.
Em tempos que somos obrigados a suportar ordens legais corrompidas e absurdas, provenientes de mentes doentias doutrinadas por ideologias nefastas, incapazes de ascender à verdade, é recomendável cultivar um cantinho seguro para alimentar o espírito, antes que nos tirem os derradeiros direitos de pensar, ser feliz, e fazer escolhas – sentencia o Sapateiro de Bruxelas.
Ao despedir-se dos amigos do Café, evoca o grande jurista Ruy Barbosa: “A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela não há a quem recorrer”. E com graça e desdém, arremeda Camões: “Nesse caso não se trata de amor, e sim fogo de ódio que queima e todo mundo vê. ”