Com letra de Terezinha Becker Dilélio, música de Frederico Schubert e revisão: Osvaldo Engel, o Hino de Erechim é o terceiro símbolo que abordaremos para analisar a construção da identidade local.
Salve o norte do Rio Grande amado,
Que progride a passos tão gigantes
Solo fértil, rico e abençoado,
Quando matas, taperas era antes
Pioneiros intrépidos lançaram
Com suor a semente do bem,
Como os pinheiros altivos alçaram,
Hoje os frutos são nossos também.
Erechim, Erechim, por ti vibram nossos corações!
Erechim, Erechim, só por ti seremos campeões!
Sempre unidos marcharemos,
Sempre honrando com amor,
As tradições mais caras,
Pois somos filhos de heróis de ardor!
E sem temor mostraremos,
Com alma viril,
Que tudo é por Deus
E pela glória deste querido Brasil!
Segundo Macedo (2010, p.25) o hino é “um objeto de troca digno de estima divina que chama atenção pela elaboração estilística e retórica”. E, de acordo com Rodrigues (2014, p.140) em âmbito estadual eles surgiram “num período em que os ideais republicanos e a constituição de 1891 inspiravam-se em modelos norte-americanos, os quais cultivavam uma “cultura simbólica”, adotando símbolos estaduais. Sob tal influência, as províncias
brasileiras, transformadas em estados federativos, poderiam ter seus próprios símbolos (bandeira, brasão e hino), respeitando a supremacia dos símbolos nacionais.
A proposta não é a analisar a construção da sintaxe discursiva do Hino de Erechim, aqui cabe um trabalho esmiuçado dos meus amigos linguistas. Todavia, permito-me realçar alguns elementos que fazem parte da constituição da narrativa oficial do município: “Pioneiros intrépidos lançaram”; “Com suor a semente do bem” e “Pois somos filhos de heróis de ardor!” refletem a proposta de valorizar a constituição da Colônia / Município, da imigração e de sua consolidação por meio do trabalho árduo.
Bertrand (2003, p. 405-406). Aponta que “sob o figurativo está, portanto, o crer; existe um “contrato de veridicção”, uma relação fiduciária de confiança e de crença entre os parceiros da comunicação, que especifica as condições da correspondência, um crer partilhável e partilhado no interior das comunidades linguísticas e culturais, que determina a habilitação dos valores figurativos e enuncia seu modo de circulação e validade. É esse contrato que tematiza a figuratividade do discurso e engendra diferentes regimes de persuasão e de adesão: o verossímil e a ficção, o real e ao fantástico, o representável e o absurdo. Assim se estabelece a ligação com as preocupações intersubjetivas da retórica. (...)”.
Ou seja, neste caso o Hino legitima poeticamente todo o trabalho dos pioneiros, o crescimento do município e aliado ao Brasão e a Bandeira constituem a cultura simbólica da cidade expressando os valores e as tradições que se busca perpassar de geração em geração, estratificando as interpretações escolhidas. Em suma, podemos destacar ainda, que a utilização da primeira pessoa do plural em parte significativa do hino reforça a busca e consolidação de uma coletividade em detrimento às individualidades. Reforçando a narrativa oficial de construção de um “ethos” erexinense.
Referências
BERTRAND, D. Caminhos da semiótica literária. Trad. Grupo CASA. Bauru: Edusc, 2003.
MACEDO, J. M. A palavra ofertada: um estudo retórico dos hinos gregos e indianos. São Paulo: Editora Unicamp, 2010
RODRIGUES, Thaís Borba Ribeiro. As estratégias discursivas de hinos patrióticos brasileiros. 2017.