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Cultura

Três amigos, 1060 km, 11 dias e histórias para sempre

Grupo mostra que é possível ser ‘normal’ e, mesmo assim, fazer algo diferente

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Jorge, Bibi e Anderson destacam quão fantástico é ver a paisagem mudando conforme as distâncias vão
Para Nietzche, ir além-do-homem é libertar-se das amarras da sociedade, e viver por si mesmo.
As magrelas também curtem uma praia.
Por Salus Loch
Foto Divulgação/Arquivo pessoal

O filósofo alemão Friederich Nietzche (1844 – 1900) disse certa vez:

- Os sonhos são projetados por nosso arquiteto interior, mas sua execução está em nossas mãos.

Para um grupo de amigos que partilha duas paixões: bicicletas e aventuras, a realização passa também pelas pernas, algum treino e boa dose de planejamento – mostrando que é possível arquitetar experiências incríveis, mesmo sendo uma ‘pessoa normal’; supostamente alguém como eu ou você.

Esse espírito inquieto e desbravador, entendendo que as viagens de bicicleta são muito diferentes das viagens de carro, foi a razão do surgimento do Kombike, que semanalmente se reúne para passeios de bike pelas estradas do Alto Uruguai.

Por vezes, todavia, os aventureiros sentem que é preciso superar as fronteiras regionais, e vão além. Para o alto e avante. Foi assim no final de 2018, quando o grupo se desafiou a ir pedalando de Erechim até Torres, no litoral gaúcho, percorrendo 500km em seis dias. Em 2021, dois membros foram até Muçum visitar a Ferrovia do Trigo, o Viaduto 13, e regressar à Capital da Amizade, completando os 500km em cinco dias.

Agora, no raiar de 2022, o desafio – que precisou superar também as restrições da pandemia – ganhou nova envergadura. Vencer em 11 dias os 1.060km de ida e volta entre Erechim e Laguna, no litoral de Santa Catarina, sem apoio.

 

Além da superação física

Voltando a Nietzche, a tarefa, sob responsabilidade de Carlos Samodjen (Bibi), Jorge Psidonik e Anderson Ribeiro, poderia ser classificada como a expressão essencial do termo ‘além-do-homem’ (melhor tradução para o alemão Übermensch, que alguns tradutores preferem transmutar em ‘super homem’), representando a capacidade de libertar-se das amarras da sociedade, e viver por si mesmo. Ou, no caso, num pequeno grupo, reunido pela afinidade. As palavras de Bibi Samodjen dão a dimensão: "viajar de bicicleta vai além da superação física. É viver o caminho metro a metro. É se integrar e curtir a paisagem de uma maneira que somente os aventureiros sabem". Numa viagem dessas, diz, você conhece as pedras do caminho, suaves colinas viram montanhas e grandes subidas são cordilheiras.

De Erechim a Laguna

O trajeto escolhido para chegar a Laguna, antigo lar de Anita Garibaldi, figura importante da Revolução Farroupilha, passou pela serra catarinense, com retorno ao RS pela serra gaúcha. O trio saiu de Erechim no dia 6 de janeiro, rumo a São José do Ouro, primeiro destino, passando por Centenário, Carlos Gomes e Paim Filho. As primeiras 24 horas reservaram ainda um encontro inusitado: no hotel Ribeiro, os cicloviajantes encontraram o Sr. Alberto Tamborino, de Erechim, o que culminou em um espaguete à putanesca feito no quiosque da hospedaria.

A partir daí o caminho conduziu-os por Campos Novos, Vargem, Lages e Urubici. O primeiro ponto alto do passeio, literalmente, foi a Serra do Corvo Branco. O quinto dia de viagem foi dedicado a ir ao topo da serra e descer ao nível do mar, chegando em Braço do Norte. Nesse caminho, lembra Jorge Psidonik, com um sorriso de saudade no rosto, “encontramos amigos, conhecemos outros ciclo viajantes e descobrimos muitas belezas do sul do Brasil”.

 

A volta

No sexto dia o grupo chegou à Laguna, em tempo de aproveitar um dia na praia e passear pela histórica cidade, fundada em 1676. No dia seguinte o destino foi Araranguá, mas não por estradas convencionais. Os ciclistas acostumados com as estradas de chão do Alto Uruguai pegaram o caminho acidentado do litoral catarinense, passando pela praia de Jaguaruna e Balneário Rincão.

O caminho de volta iniciou com o maior desafio da viagem, vencer a Serra da Rocinha. A grande subida tem mais de 1200m de elevação em cerca de 20km. A estrada está em obras, com bloqueio em algumas partes e horários – o que não foi suficiente para brecar o ímpeto do pessoal, que completou essa etapa tomando um (ou mais) chopps no final de tarde em São José dos Ausentes.

No retorno, eles ainda passaram por Vacaria e Ibiaçá, percorrendo, no penúltimo dia de viagem, a maior distância: 122km, entre as duas cidades. Nesses dias o clima havia mudado bastante, trocando o tempo ameno por abafamento e algumas chuvas isoladas.

 

Malas de 1 tonelada, lembranças para sempre

O desafio do penúltimo dia foi hercúleo: Bibi, Jorge e Anderson estavam no limite. A reta final foi difícil. O calor estava insuportável e as malas, contam, pareciam pesar uma tonelada. Porém, dois outros membros do Kombike vieram ao encontro do trio, Cláudio Samojeden (irmão de Bibi) e Evandro Fassina, que haviam pego a estrada na manhã do dia 16 rumo a Charrua, aonde se deu o reencontro com os amigos viajantes.

O ânimo de encontrar os colegas de pedal trouxe as forças necessárias para que a aventura restasse completa. Juntos, chegariam a Erechim na tarde de domingo, 16, marcando o caminho com fibra, resistência e fraternidade, eis que por 11 dias o trio original fez tudo junto: acordou na mesma hora, dormiu na mesma hora, tomou café, almoçou, jantou, esperou a hora do banho, partilhou hábitos e costumes, fortalecendo laços e momentos que não serão esquecidos. Ao final, na mala, além das roupas sujas, trouxeram muitas histórias para contar e a certeza de continuar pedalando e viajando... "oh seu moço, não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrada por aí” – ao que poderíamos parafrasear Nietzche, observando que “temos as bikes para não morrermos de verdade”.

Instagram

Para quem quiser acompanhar as aventuras do grupo, basta acessar o perfil do Kombike no Instagram: @kombike.erechim.

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