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Opinião

Vivendo um dia como os velhos

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Marcos Vinicius Simon Leite.
Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Rodrigo Finardi

Eis aí uma experiência que provavelmente você nunca pensou em ter: viver um dia como um velho. Um exercício de empatia, termo que está na moda. Viver como um velho, sendo ainda novo, ou mesmo no meio do caminho, requer que você sinta o que os velhos sentem. Mas afinal, como saber, bem lá no fundo, o que os velhos sentem? Foi então que a vida me deu essa experiência de presente.

Doença e velhice

Descobri então, que quando estamos doentes vivemos como os velhos. Nossa vitalidade fica reduzida. O tempo demora a passar. O corpo não tem mais a agilidade da juventude e, não raro, as dores estão presentes. Todos os interesses se modificam. A pressa morre. De certa forma, a doença é um tipo de velhice que dá mais cedo, não escolhe idade. Funciona como uma espécie de aviso, para que possamos dar uma pausa e refletir o modo como estamos vivendo. Tipo um refúgio na estrada da vida. Mas a velhice é muito mais do que isso. É uma constante, irreversível, como se o refúgio fosse a própria estrada. Não há mais muito a percorrer, mas é preciso esperar, ser paciente.

Alguns comportamentos dos doentes são de fato parecidos com o dos velhos. Há os que não dormem direito e há os que dormem demais. Há aqueles que perdem a memória e outros que não tem a mesma sorte. A estes, não resta outra expectativa, senão lembrar do passado. É como um show que vai terminando e começa dar aquela vontade de pedir bis. Se você não teve a sorte de flertar com alguns refúgios durante sua jornada, é possível que encontre memórias indesejáveis a transmutar quando ficar velho. Esse é o lado bom de ficar doente durante a jornada.

Memórias

Quando se está velho, perder a memória pode ter lá suas vantagens, ao menos para o idoso. Funciona como um auto-perdão. Os erros, os desacertos, os pecados, os arrependimentos, as manias, as crenças. Tudo isso pode ser esquecido e pode ser libertador. Uma espécie de tranqüilizante até que a nossa vitalidade cesse por completo. Curiosamente, nos meus dias de velho, assisti ao filme Viver Duas Vezes. Essa película espanhola mostra de forma sutil, sem muitas fantasias, o processo de demência senil, causado pelo Mal de Alzheimer. O roteiro é bem realista e o final é menos trágico do que no filme Ella e John. Recomendo os dois filmes, se você, assim como eu, tem apreço pela terceira idade. Em ambos há algo em comum: só o amor é capaz de tecer mecanismos para um final de vida menos dolorido.

Parada obrigatória

Viver esses dias como um velho, longe da minha esposa e de meus filhos, despertou coisas novas em minha mente. Notei como é triste quando os dias são todos iguais. Mas percebi que as limitações impostas pela velhice, no meu caso pelo mal-estar, funcionam como um sistema de freios e contrapesos. Permite que possamos revisar nossas atitudes, aquilo que damos valor em excesso. Com o tempo passando mais devagar, podemos apreciar mais os detalhes do dia-a-dia. Saem as vozes das crianças, as reclamações de limpeza, a vida que pulsa dentro de uma casa normal. Entram o canto dos pássaros, o barulho do vento, o olhar de um cachorro. Isso tudo é a consciência divina, uma espécie de alforje a guardar nossas memórias mais importantes para o momento sublime da vida.

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