Em sua live semanal à turma do cafezinho, o Sapateiro de Bruxelas escolheu falar sobre Hobbes, filósofo inglês, que teve sua obra mais famosa, “Leviatã”, publicada em 1651. Explica-nos o mestre que Leviatã se trata de uma referência bíblica a Jó 41, em que o poder de um aterrorizante monstro do mar é descrito como metáfora ao poder do Estado.
No livro, o estado de natureza é substituído por um estado poderoso, governado por um soberano absoluto. E mais: essa situação é legitimada por um contrato entre todos os homens que concordam, coletivamente, em abrir mão de suas vontades individuais em favor da vontade do déspota, cujas obrigações para manter sua legitimidade implicam em garantir a paz e a vida social regular. Portanto, é lógico que o dito chefe deveria ser imparcial, justo, honrado e respeitável.
O calçadista informa que - segundo Hobbes - no estado de natureza, o homem é o lobo do homem. Não raro, prevalece a guerra e a fúria de todos contra todos. Mesmo não sendo fato, isso pode acontecer a qualquer momento, ao menos no pensamento de cada um ou mesmo coletivo – complementa o artesão.
E segue o mestre no raciocínio filosófico: - O homem natural é eternamente atormentado pela imaginação: os fracos imaginam que serão massacrados ou explorados pelos fortes, podendo, inclusive, não só perder seus direitos, mas a própria vida.
Por outra, os fortes imaginam que os fracos se vingarão deles quando caírem exaustos e não puderem mais manter vigília pelos seus bens e sobrevivência. Nesse confronto insolúvel ambos seriam mortalmente derrotados.
Pior é a consequência do devaneio generalizado: motivados pelo medo mútuo, cada um – forte ou fraco, rico ou pobre, bom ou mau - parte para obter a vitória sobre o outro, até mesmo quando o outro ainda nem cogitou em atacar. Há uma espécie de paranoia coletiva – assegura o velho sabido.
Basta apenas um gesto, uma fagulha, um movimento falso para ser interpretado como grave ameaça, e aí tudo descamba para violência.
Continua o artesão em sua fala mansa e convincente: os fatos não precisam acontecer para elevar o nível de tensão e tornar a existência insuportável; basta a imaginação para gerar apreensão, angústia e pavor. O medo, portanto, é o instrumento doloroso que conduz o homem ao contrato social e – por bem ou mal - lhe garante segurança e paz.
De modo singelo, fica claro que o temor - ou de forma mais amena -, a civilidade, enfim o respeito à necessária ordem mínima, é a razão mais rasa e simples de abandonar o estado de natureza e optar pelo controle estruturado, garantidor do convívio mais pacífico e produtivo possível.
Porém - comenta o erudito amigo –, é natural e mais que certo que a agressividade entre os antagonistas não cessa por completo na situação de estado organizado. Mas devemos convir, uma vez decidido por esse estado, fica razoável para maioria e aceito de tacitamente por todos, que o supremo mandatário (no caso de uma democracia presidencialista constitucional, o presidente eleito) deve ter poder para manter a vida comunitária em boa ordem, de forma a executar o referido contrato, além de seu programa de governo previamente avalizado pelas urnas.
Ainda esclarece o artífice: o estado forte de Hobbes é o oposto do estado de terror e da anarquia completa. Esculhambação, inseguranças e tocaias pertencem à vida em estado de natureza, onde prevalece o desrespeito ao próximo e às instituições.
Assim posto e aceito - diz o Sapateiro, de forma direta e quase simplória -, o que se observa claramente no atual momento do Brasil, é uma explícita tentativa de degradação ou decomposição do estado organizado. Grupos minoritários, aliados a forças antidemocráticas, tentam solapar o poder do governo majoritariamente escolhido, por meio de contínuos ataques infundados.
Os inconformados com a decisão da maioria, apoiados por gigantes midiáticos desmamados de suas benesses, semeiam, adubam e exacerbam discussões inócuas e sem lógica sobre os mais diversos temas.
Vale tudo, desde saúde pública, mudanças climáticas, cor dos olhos, até plaquinhas de WC. Do pescoço para baixo é canela. Tudo é motivo para inflamadas e etéreas agressões, tão ridículas quanto desastrosas. Qualquer motivo serve, desde que gere insegurança, incômodo ou apreensão. Genocida e assassino viraram palavras de ordem na boca de alienados adoradores de Stalin.
Porém, é sempre bom lembrar que esses mesmos apátridas, na sua vez de governar, se encarregaram de desmoralizar a justiça ao nomearem julgadores sob encomenda para livrar da cadeia vagabundos criminosos, narcotraficantes e outros facínoras. E mais, por ora, ainda persistem em avacalhar o Congresso ao darem asas à risível CPI dos “Três Patetas”.
Obcecados pelo poder, agem ferozmente para desacreditar também o executivo e suas ações para suplantar a crise sanitária e retornar à prosperidade. A turminha do quanto pior melhor volta a atacar sistematicamente seguindo o manual de Gramsci.
Por fim e ao cabo, o Sapateiro de Bruxelas chega a brilhante e obvia conclusão – ao menos a seu modesto entender: quebra-quebra, desordem, desrespeito a qualquer norma, banzé generalizado, só interessa aos baderneiros de sempre que querem, mais que tudo, rasgar e eliminar o contrato social construído pelo livre exercício do voto.
Removidos o bom senso, a razão e a dignidade popular, abre-se o caminho para domínio pelo monstruoso estado totalitário.
E ao encerrar sua prédica sita outro pensador inglês, este do século IX, Benjamin Disraeli:” O momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas.”
Simples assim, afirma o coureiro, ao acenar docemente para a câmara na despedida.
Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. Da Biblioteca Pública do RS.