O Alto Uruguai Gaúcho, mesmo com sua história pouco mais que centenária, produz e produziu grandes líderes políticos. Alguns alcançaram projeção nacional. Hoje, dedico meus escritos a um em especial. Trata-se de Odacir Klein.
Homem íntegro e probo, de origem singela, é prova viva e real que o sol nasce para todos, e brilha mais para os que trabalham. Originário da pequena Erebango, então distrito de Getúlio Vargas, veio à luz a 4 de março de 1946. Técnico em Contabilidade e depois advogado. Aos 21 anos, elegeu-se vereador, e antes do término de seu primeiro mandato, foi prefeito da cidade de Getúlio Vargas. Na sequência foi deputado federal por quatro legislaturas ocupando os mais altos cargos do Congresso. Mais tarde comandou o Ministério dos Transportes. Também foi membro do Conselho da República, diretor do Banco do Brasil, presidente do Banrisul, diretor do BRDE e Secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul por três vezes. Escreveu edificantes livros sobre variados temas.
Porém, antes de tudo, Klein sempre foi um grande aglutinador de ideias e ações. Suas atividades políticas e econômicas, além de sua vida digna e profícua, dedicada ao ordenamento social justo e ao crescimento pessoal de quem o cerca, tem sido pautada por autêntica prática da filosofia cooperativista.
Eis que há poucos dias, tive o imenso prazer de receber, com especial dedicatória, sua mais recente produção literária lançada pela Editora Aldeia Sul, em abril de 2021, Cooperativismo -Testemunho de Seis Décadas. O livro detalha acontecimentos históricos e os bastidores de situações que não constam nas demais obras sobre o cooperativismo brasileiro e, assim, tanto leva o leitor ao deleite pela narrativa cadenciada e fluida quanto permite que a obra seja utilizada para estudos acadêmicos – escreve Fabrício Klein no posfácio do livro de seu honrado pai.
A compacta brochura, com pouco mais de 140 páginas, descreve sem rodeios e na primeira pessoa do singular, a magnífica trajetória que inicia a 2 de janeiro de 1961, quando o jovem Odacir é contratado como Técnico em Contabilidade, pela Cooperativa de Produção de Banha Santana Ltda, com sede em Estação Getúlio Vargas – atual município de Estação RS.
Discorre na sequência, com precisão e conhecimento genuíno, sobre a história do cooperativismo no Brasil, mais especificamente do ramo agropecuário, e a respectiva evolução legislativa desde 1932.
Daquela época até os dias atuais, nos mostra didaticamente, passo a passo, página a página, “lei a lei”, tudo que de relevante foi produzido em termos de legislação, com especial ênfase a sua brilhante atuação no parlamento.
Ao transitar sobre os avanços legais e o novo código Civil Brasileiro (2002), Lei complementar
nº 130/2009 sobre as cooperativas de Crédito, Lei nº 12.698/2012 que dispõem sobre as cooperativas de Trabalho, Klein nos dá uma lição de direito, vida e sabedoria.
Outros pontos altos do relato passam pelas suas ações na Frente Parlamentar Cooperativa e na liderança da Fecotrigo.
Alguns personagens, em minha leitura de aprendiz, merecem significativa relevância. No capítulo “OCB na Assembleia Nacional Constituinte de 1988” resplandece a figura de Roberto Rodrigues, ex-presidente da OCB, ex-presidente da ACI e ex-ministro da Agricultura. Particularmente me associo ao autor no reconhecimento a esse expoente que tive a honra de conhecer e por vezes conversar em eventos da Unimed e da própria OCB. Cito, ainda outra autoridade de comum camaradagem, admiração e respeito. Falo de Márcio Lopes de Freitas, atual presidente da OCB, a quem merecidamente é dedicado o capítulo “20 anos de consolidação: integridade e conformidade”.
Há ainda outra expressiva figura humana, um gigante do associativismo, renomado mestre da minha pós-graduação em Cooperativismo na Unisinos, Professor Virgílio Perius. A este grande parceiro e presidente da OCERGS, cabe particular destaque no que se refere a sua atuação na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, em que o advogado eminente de profundo conhecimento jurídico, técnico e doutrinário agiu como verdadeiro baluarte da nobre causa cooperativista.
Entre os agradecimentos encontro o nome de outro amigo e colega médico a quem devoto profundo respeito e elevada estima, Dr. Paulo Barcelos, presidente da Central Unicred RS e ex-presidente da Unicred do Brasil.
Enfim a obra é uma aula de História entremeada de lealdade, fraternidade e generosidade, dedicada aos companheiros de lutas pela evolução social e econômica de nosso País.
Arremato ao afirmar que, como orador, no parlamento, bem como no palanque, Klein está entre os melhores do nosso tempo. Sua retórica tem qualidade e prende a atenção. É bom no discurso formal, e melhor ainda no calor do debate. Dispõe de serena, desprendida e elevada visão moral que harmoniza com a arte de administrar ágil e objetivamente, característica dos que dirigem os rumos de sociedades permanentes. Figura representativa da doutrina cooperativista, caracteriza-se por ser um intelectual pragmático e um repositório de vasto conhecimento em quase todos os assuntos de ordem prática.
Sabe como, quando e porque mudar levando em consideração as necessidades, momentos e circunstâncias. Apegado às próprias convicções, orienta-se sempre pelas mesmas estrelas do bom senso, do bem comum e da colaboração. Avança com os tempos e vive na vanguarda de quase três gerações.
Desde minha adolescência Odacir Klein foi e será um referencial fascinante, pessoa ligada ao passado, amigo e admirador confesso de meu dileto tio Dr. Léo Stumpf, sábio advogado que certamente muito o auxiliou no início de sua prodigiosa carreira.
Por tudo que representa, saúdo com a ênfase merecida este relevante trabalho proveniente de um líder de mente brilhante e mãos limpas.
Encerro ao dizer que hoje quase não se encontram mais homens como Odacir Klein. Com certeza no meio político brasileiro não os há mais.
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. Da Biblioteca Pública do RS.