É comum ouvir as pessoas falarem mal da cidade onde moram, demonstrando, às vezes, um claro desconhecimento sobre o local e desinteresse pelo assunto. Mas, principalmente, sem parâmetros para avaliar o que é bom e o que é ruim. O que diria ser o maior problema. Vou requentar este texto, pois me parece pertinente, com algumas alterações.
Para um interlocutor com algum senso crítico, uma exposição muito negativa também deixa dúvidas, pois parece estar somente baseada na experiência pessoal, que pode ser limitada. Como da mesma forma algo muito espetacular pode ser fantasioso, irreal, distante da realidade. Mas tudo isso falando de forma conceitual, mas na prática, como ocorre?
Se a informação não for minimamente questionada terá um caráter, mesmo momentâneo, verdadeiro. Desta forma, vai se absorver uma propaganda negativa, que pode se difundir rapidamente entre as pessoas. Sem analisar se de fato a cidade está conforme o relato, pergunto-me por que, normalmente, se vende uma imagem pouco atrativa da cidade em que se mora?
Prática?
Provavelmente, porque assim a sua experiência lhe diz que é a realidade. Contudo, será mesmo que Erechim, por exemplo, não tem nada de positivo? Algo que possa ser conhecido e avaliado como eficiente e satisfatório? Por que sempre prevalece o lado negativo ou qualquer outra informação? Hábito de falar mal de tudo? Essa é a prática?
De todos
Os fatores podem ser muitos, mas me fixo num, a sociedade, e o indivíduo parece não querer construir uma imagem positiva, uma cultura de valorização das próprias ações e experiências, o hábito de edificar os próprios significados a partir do contexto em que se vive. Aliás, parece que desprezar é a regra vigente.
Dar sentido
Primeiro, é preciso aprender a dar valor para aquilo que se faz. É isso que, em resumo, nos falta. Dar sentido e significado para a realidade que nos rodeia para assim poder modificá-la, sem viver na dependência ou significando a vida com valores totalmente alienados ao lugar em que se vive. Isto é, criar parâmetros, ideias, valores, ter e tornar-se referência, para de fato haver transformação.
Sem projeto, sem realização
Esta situação nos revela a ausência de um projeto de país, um planejamento que envolva as diferentes áreas como infraestrutura (estradas, energias renováveis), política (mais dinheiro para os municípios), econômica (gerar trabalho, renda e consumo das famílias), social (combater a fome, desemprego), educação, ciência e tecnologia. E aqui entraria a ação efetiva da classe política federal, que legisla em causa própria e não pelo bem do país. Nas prefeituras já acontece diferente, a política está a serviço da comunidade, resolver as suas necessidades.
Para completar o quadro, se não há um projeto não existe a preocupação em realizar coisa alguma. E o pior de tudo, é achar que o que foi dito acima ocorre por fatores “naturais”, uma dinâmica própria sem ter a intervenção do homem-sociedade. Essa é uma terrível e desastrosa cultura que está impregnada nas entranhas sociais deste país que emperra tudo, indivíduo e coletividade.
Muito o que fazer
O problema é que numa análise superficial se vê que há muito trabalho para se fazer e ainda não se começou a mexer no vespeiro. E, por quê? A riqueza do Brasil não está a serviço do brasileiro. E assim se deixa de lado o que é mais importante: pensar a sociedade, o todo, a partir da satisfação das necessidades individuais na realidade local.
No Alto Uruguai, as prefeituras já vêm fazendo isso, estão transformando a maneira de fazer política tendo como prioridade a necessidade da comunidade. Essa será a base das grandes mudanças estruturais do país, no meu entendimento, é claro.
Sujeito do processo
Dizer que o indivíduo precisa tomar a iniciativa e se considerar sujeito do processo econômico, social, político, educacional, tecnológico, cultural, começando a respirar outros ares para que a reorganização seja efetiva de dentro para fora, e não o contrário, soa um tanto quimérico, fantasioso, já que isso só é possível se há comida na mesa e um teto pra se dormir. Se houver trabalho e dignidade. Aí viria o ensino e a cultura para transformar, aprender um ofício.
A colaboração do indivíduo nesta transformação, de cada um, é importante, mas é preciso ter um mínimo de estrutura (trabalho-renda), pois não dá pra fazer nada de barriga vazia. A mudança começa com o indivíduo, sim, mas para isso precisa da coletividade, sem ela não há indivíduo. Há na realidade uma nanofração de cada um de nós, que não vingará se não houver condições de frutificar.