Todo mundo tem sua história de Natal inesquecível. E nessa véspera de Natal, de um ano difícil, desafiador, de inseguranças por conta de um vírus invisível, resolvi escrever sobre uma história inesquecível de minha infância em Erechim
Natal de 1980 e o prédio do Quincas
Era o Natal de 1980. Morava na Rua JB Cabral, em frente da Praça Júlio de Castilhos, no prédio do Quincas, como era chamado na época. Essa história lembro como se fosse hoje. Reporta aos meus primeiros anos morando em Erechim. Tinha 10 anos, e meus dois irmãos, Maurício com 9 e Leandro com 8. Foi o Natal da primeira bicicleta. Como esquecer?
Segredo que corroía por dentro
O mais interessante é que sempre sabíamos o que ganharíamos no Natal (de tanto incomodar os pais), mas esse foi diferente. Minha mãe Stela, fez um segredo terrível e que nos corroía por dentro. O que estaria ela ‘aprontando’ para os três anjinhos? Todos comportados, boas notas. E nenhum sinal do que nos esperava.
O foco era a gravidez
Como era o mais velho fui pedir para a mãe o que nos daria, já combinado com os outros, lógico. Disse que estava com pouco dinheiro, grávida de minha irmã e que o foco seria ela. E que nós, os mais velhos, teríamos uma quantia ‘X’ para gastar, cada um.
O valor era insuficiente
Sabendo do valor que poderia gastar comecei a matutar. O que pediria? Queria uma bicicleta, mas o dinheiro não era o suficiente. Dava no máximo para comprar o guidão, quem sabe uma roda e dois pneus. Impossível. Iria passar mais um ano sem bicicleta.
Colocar o pé no barro
Daí me surgiu a ideia de encontrar uma bicicleta usada. Não tinha as facilidades de hoje, de pesquisar na internet, entrar em grupos de compra, solicitar no facebook, mandar para todos os contatos do whatsapp. Precisava colocar o pé no barro até encontrar.
Os mais antigos entenderão
E não é que faltando seis dias para o Natal consegui uma bicicleta usada. Exatamente no valor que a minha mãe tinha me dito que poderia gastar. Uma ‘tigrão’, com banco malhado, toda estilizada, além dos pneus brancos. Um luxo (os mais antigos entenderão). Estava extasiado com a real possiblidade de ter minha primeira bicicleta.
Um soco direito no queixo
Então corri falar com minha mãe, para pegar o dinheiro lógico, e a resposta que ela deu, me tirou o chão. Foi como o soco direto no queixo. “Meu filho, não posso te dar a bicicleta. Como ficarão os teus dois irmãos”. Chateado, me resignei, mas entendi. Desde aquele dia não queria mais saber do Natal, tipo “tanto fez, tanto faz”.
Deram um jeito de nos tirar de casa
Os dias foram passando e eu me conformando. Chega a véspera de Natal. O apartamento que morávamos era aqueles antigos, com um corredor no meio e as peças dos lados. No meio dele – à esquerda – tinha uma sala. A mãe e meu padrasto Paulo Renato Berto, o Fumaça (uma alma em pessoa), deram um jeito de nos tirar de casa.
Tentava espiar pela fechadura
Quando retornamos, aquela sala no meio do corredor estava trancada. Imagina o que passava na cabeça de três crianças. Tentava espiar pela fechadura, mas pelo lado de dentro tinha um papel para bloquear a nossa curiosidade. Foi um dia interminável. Que tortura! Não consegui a bicicleta, não sabia o que tinha naquele quarto. E a ansiedade só aumentava.
Olhos vendados e laranjinha Balvedi
Chega a noite (depois do dia mais longo da história). Hora dos presentes. A mãe pega os três filhos, venda os olhos, abre a porta daquela bendita sala no meio do corredor e para nos acalmar dá uma laranjinha Balvedi para cada um.
A voz macia, estava emocionada
Falou algumas palavras que o ano foi difícil e o Papai Noel viria magrinho, e o que conseguiu comprar era apenas uma lembrança. Mandou ficarmos encostados numa parede e retirou a venda uma a uma. Como uma fada, com a voz macia, sentia que ela estava emocionada. Pediu que nos virássemos.
Povoa meus pensamentos até hoje
Naquele momento tive a certeza que existe o pote de ouro no fim do arco-íris. Aquela imagem que vi há 40 anos atrás, povoa meus pensamentos até hoje. Está mais viva do que nunca, e acredito que para meus irmãos também.
Lágrimas nos olhos
Três bicicletas Caloi Berlineta novinhas, diante de nossos olhos. Eu só via as lágrimas escorrer pelos olhos de minha mãe. Eu, Maurício, Leandro parecíamos baratas tontas.
Recomeçando a vida
Um momento mágico, para nós crianças. Mas acima de tudo para mostrar o espírito de Natal. A alegria dos filhos, foi a maior recompensa de minha mãe que estava recomeçando sua vida após a separação.
Dores no corpo, mas sorriso no rosto
No dia seguinte, antes de clarear, estávamos com as bicicletas nas ruas de Erechim, mais precisamente pelas calçadas da Avenida Maurício Cardoso. Horas e horas sobre bicicletas. De noite dores por todo o corpo, mas com um sorriso estampado no rosto.
O lado espiritual, nos conforta, nos alenta
Essa história, fala de um presente material. Que os pais não medem esforços para alcançar o que é possível para seus filhos. Porém, estamos num momento em que o lado espiritual, a presença, mesmo que de forma virtual, nos conforta, nos alenta, por estarmos todos vivos, quando milhares de pessoas perderam a vida no mundo por conta da covid-19, e seus familiares não puderem nem se despedir.
Proteger a todos sem negligenciar
Nesse ano, tínhamos programado uma grande festa com toda a família. Mas em função da pandemia, resolvemos cancelar, para proteger a todos nessa pandemia. Queremos passar outros natais com todos juntos, e que não falte ninguém, principalmente por negligência nossa.