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Opinião

As Vacas da Intolerância

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Hoje usarei uma antiga parábola, muito conhecida, e alguns recheios pessoais, para entreter o estimado leitor. Para ser mais didático, apresentarei o escrito em capítulos, seguido do tradicional epílogo.

Capítulo Um

Eis que o Sábio e seu discípulo andavam pelo mundo havia dias. Exaustos, procuravam lugar para descansar à noite. Avistaram, então, um casebre no alto de uma colina e pediram abrigo. Foram bem recebidos pelo dono, um senhor maltrapilho e abatido, que os convidou a entrar e apresentou sua esposa e filhos.

Durante o jantar, que consistia em café com leite, pão dormido e queijo seco, perceberam a comida escassa até mesmo para a família. O discípulo, penalizado com a situação, mirando os rostos cansados e subnutridos, perguntou ao pai de onde provia seu sustento.

O enfraquecido homem respondeu:

– Está vendo àquela vaca ali fora? Dela tiramos o leite que consumimos e fazemos queijo. O pouco de leite que sobra, trocamos por outras mercadorias na cidade. O animal é nossa fonte de renda e de vida. Sobrevivemos com o que nos fornece.

O aprendiz olhou para o mestre que alheio e de cabeça baixa ouvia em silêncio.

Pela manhã, os visitantes acordaram antes que a família. Enquanto se preparavam para seguir a jornada, o novato questionou:
– Mestre, como podemos ajudar essa pobre família a sair dessa miséria?

O onisciente então falou:

– Quer ajudar essa família? Pois pegue a vaca e empurre despenhadeiro abaixo.

O aluno espantado retrucou:

– Mas a vaquinha é a única fonte de renda da família, se a matarmos eles ficarão mais miseráveis e, aí sim, morrerão de fome!

O iluminado guru calmamente repetiu a ordem:
– Pegue a vaca e empurre-a para o abismo.

O discípulo, aturdido, seguiu as ordens do mestre e jogou a vaca barranco abaixo e a matou.

Capítulo Dois

Acordado pelo estranho barulho que vinha do escarpado, o pai correu para o pátio e descobriu que sua vaquinha estava morta. Não havia mais como sobreviver sem o animal.

Instalou-se o medo, o pânico e a raiva no seio da família – até então pacata e unida. Enfurecidos uns com outros, passaram a reclamar de forma agressiva. Na discussão, além de acusações mútuas, previam situações catastróficas e alarmantes.

Imediatamente, juntos e desesperados, foram ao armazém mais próximo e gastaram quase toda as parcas economias em comidas, papel higiênico, água mineral e até num botijão de gás - embora somente fizessem uso de fogão a lenha. Desatino geral e irrestrito.

Passados alguns dias a angustia arrefeceu. Juntos chegaram à uma nova conclusão: a situação caótica e agressiva não traria a vaca de volta.

A partir da assertiva lógica e irrefutável, equilibrados mentalmente, passaram a se respeitar mais e pensar antes de falar. Reduziram os gastos ao essencial, e admitiram que deveriam enfrentar o problema frontalmente. Deu-se a virada.

Daí para frente as coisas começaram a andar. Agiram de forma colaborativa com foco no bem estar comum. E mais: desenvolveram talentos que sequer sabiam possuir. Procuraram soluções criativas e inovadoras para seus antigos problemas, aprenderam novos ofícios. Foram à luta com espírito e fôlego renovado.

Optaram, enfim, a viver o presente com o pensamento num futuro comum e melhor. A alegria e o sentimento de prosperidade, tomaram conta do grupo familiar.  Venceram o medo e a desunião.

Capítulo Três

Passado algum tempo, o discípulo – que ainda sentia remorso pelo que havia feito - decidiu visitar àquela família.

Ao voltar à região, avistou de longe o local do casebre, porém ali havia uma linda morada. Entristecido, disse a si mesmo:
– De certo, após a morte da vaca, ficaram tão pobres e desesperados que tiveram que vender a propriedade para alguém rico.

Aproximou-se da casa e, ao avistar uma criada, perguntou:
– Você sabe para onde foi à família que vivia no casebre que se localizava por aqui?

– Sim, claro! Eles ainda moram aqui. Estão no jardim. – disse a moça, apontando para o lado.

O discípulo caminhou na direção do grupo e pôde ver um senhor altivo, brincando com três bonitos jovens e uma bela mulher. A família que ali estava não lembrava em nada os miseráveis que conhecera tempos atrás.

Ao avistar o visitante, o senhor reconheceu-o e prontamente o convidou a chegar.

O discípulo quis saber como tudo havia mudado tanto desde a última vez que os vira.

O anfitrião então falou:

– Depois da noite que vocês estiveram aqui, nossa vaquinha caiu no precipício e morreu. Como não tínhamos mais nossa fonte de renda e sustento, fomos obrigados a procurar outros meios de sobrevivência. Descobrimos muitas alternativas para ganhar dinheiro e desenvolvemos habilidades que nem éramos capazes de imaginar.

E continuou:

– Perder aquela vaquinha foi horrível, mas também foi uma benção:  aprendemos a não ser acomodados e conformados. Entendemos que às vezes precisamos perder para ganhar mais adiante.

Só então o discípulo entendeu a profundidade do que o mentor, no passado, o havia ordenado a fazer.

Epílogo

Por tanto, é simples assim, queridos e sagazes leitores: Se transportarmos essa parábola para os dias atuais, adaptada às circunstâncias, certamente alcançaríamos a trajetória ideal para enfrentarmos as nefastas agruras deflagradas pela Pandemia Covid-19. Se solidários jogássemos a vaca das dúvidas plantadas, divisões exacerbadas e politização irracional, barranco abaixo, certamente passaríamos do estado de medo ao período de aprendizado. Do aprendizado, evoluiríamos ao crescimento redentor.

Só isso – ou tudo isso - facilitaria muito a vida de cada um, além da convivência coletiva. Ao exercer a simples tolerância, boa vontade e fraternidade, certamente chegaríamos a um belo futuro pacífico e promissor. Porém, se não estou enganado, alguém muito importante, um fantástico contador de parábolas, há uns dois mil anos passados, já foi condenado pelo povo por semelhantes ideias benevolentes. E parece, infelizmente, que muitas pessoas esqueceram os ensinamentos Dele.

 

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras.

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